15 August 2016

168 - O PRIMEIRO CAÇADOR-GUIA DE MOÇAMBIQUE


ÁLBUM DE
RECORDAÇÕES 

(2)

CAÇADORES  GUIAS

(Republicação) 

  
Alberto Novaes de Sousa Araújo
(o primeiro caçador-guia de Moçambique)

 
Este personagem encabeça, por mérito próprio a lista que  a seguir divulgamos, referente aos caçadores guias que actuaram em Moçambique antes de 1975, data da independência deste país e altura em que ali  foram suspensos os safaris de caça. 

Pessoa algo polémica devido à forma muito própria, de certo modo austera e rigorosa de estar nesta actividade, fruto talvez das suas raízes aristocráticas de que muito se orgulhava (era filho bastardo do Rei D. Carlos I de Portugal) (1), o Alberto Araújo era considerado o gentleman  da indústria dos safaris de caça em Moçambique. 

Foi concessionário da Coutada oficial nº 1, anteriormente designada por “Coutada do Sabonete”, que fazia limites com o Parque Nacional da Gorongosa . Esta Coutada, por ser o prolongamento ecológico natural do Parque, viria mais tarde e já sob tutela da SAFRIQUE, (2)a ser extinta para dar lugar a uma zona em regime de vigilância especial com vista à sua integração no mesmo Parque. Ali existiam, com abundância, as variadas espécies de animais comuns na região da Gorongosa, incluindo o raro rinoceronte preto, (diceros bicornis), sendo o ponto mais a sul do país onde esta espécie se encontrava na década de 60. 

Uma Coutada fabulosa, em variedade e quantidade de espécies da fauna bravia moçambicana, das mais famosas do continente africano!
O Alberto Araújo emergiu como caçador profissional nos anos 50 do século passado, motivado pela sua grande paixão pela caça quando ao serviço como quadro superior da Trans-Zambezia Railway (proprietária  da linha de caminho de ferro que ligava  a Beira ao Malawi  - antigo Niassalandia -,  via   Dondo, Inhaminga e Sena,  com ramais para Marromeu e  Moatize, mais tarde adquirida pelo Estado português).
 Os seus feitos como caçador eram bem conhecidos e foram largamente noticiados nos jornais e revistas da época, sobretudo devido aos frequentes abates de leões no território da Manica e Sofala e nomeadamente  na região ao  longo da linha férrea entre o Dondo e Inhaminga, muitos deles transportados em carrinhas de caixa aberta ou em zorras para a cidade da Beira onde causavam espanto na população. A sua fama  de caçador de grande mérito, valeu-lhe na época o epíteto de “one shot”, justamente por alardear  a excelência da sua pontaria e cometer aquilo a que chamava de “proeza” que era  matar os animais  sistematicamente com um único tiro. Uma teoria em que só os leigos podem acreditar pois é sabido (e grandes caçadores têm corroborado) que sendo embora frequente nos bons atiradores abaterem animais com um único disparo, a verdade é que isso não é  regra infalível, sejam felinos, paquidermes, antílopes,  bovídeos,  equídeos ou  répteis o alvo do caçador, sobretudo quando os animais são alvejados em movimento e não se pode acertar nos principais  pontos vitais que são o cérebro e o coração. Uma bala colateral por norma derruba o animal, mas terá de ser atingido com mais uma ou duas balas para garantir o seu abate.
 Naturalmente e com todo o respeito pelo grande caçador que foi Alberto Araújo, não deixo de lhe reconhecer o mérito de grande na nobre e arriscada arte de caça africana  e de exímio atirador,  aceitando também  que uma boa parte dos animais que abateu tivesse sido apenas com um tiro. O exagero da sua fama faz parte dos mitos que alguns caçadores (ou seus amigos) criaram, sabendo-se que isso impressionava e lhes dava crédito, atributos que o  saudoso Alberto Araújo granjeou sem precisar do bizarro epíteto “ Araújo one shot”, pois era, de facto, um grande caçador.
Conheci-o pessoalmente apenas em 1963,  altura em que  visitei pela primeira vez a  Coutada 1 quando ali decorriam os preparativos para a campanha cinegética desse ano. Tudo ali era uma azáfama de trabalho no arranjo das picadas e  limpeza   do acampamento - o célebre Kanga N’Thole -  de que tanto se orgulhava, construído  em madeira tratada num local de rara beleza sobranceiro ao rio Nhandugué que delimitava o Norte do Parque.



Aspecto parcial do acampamento de Kanga N’Thole nos anos 60

Nesse mesmo ano e no seguinte, tive a oportunidade de supervisionar alguns safaris oficiais nas diversas coutadas de Manica e Sofala, incluindo a nº 1, pelo que foram muitos os dias de convivência com o decano dos caçadores guias.  Nasceu assim, uma profícua amizade entre ambos, que muito ajudou na minha acção fiscalizadora nos seus domínios  e nas coutadas circunvizinhas, sempre apoiado pelos seus principais pisteiros, nomeadamente aquele que era o seu favorito - o Macorreia.



O pisteiro Macorreia,  o favorito do Alberto Araújo
(Foto do autor quando em campanha de combate à caça furtiva na Coutada 1)

Depois de 1965, o Alberto Araújo, já com a sua empresa integrada na SAFRIQUE, deixou de actuar directamente no campo, passando  a exercer funções de inspector e principal  public relations da organização  na sua sede da cidade da Beira. Ali o contactei sempre que me deslocava à capital do distrito, quer para tratar de assuntos de serviço quer simplesmente para o cumprimentar e trocar algumas impressões de interesse comum. Foi sempre impecável e generoso comigo, preocupando-se sobremaneira em me transmitir os seus conselhos e experiências.



 
Em 1963, depois do1º safari oficial dos Marqueses de Villaverde,(3) o grupo - Alberto Araujo,  Marquês, Adérito Lopes (jornalista), Senhora Aznar (acompanhante), Marquesa e o autor – momentos antes do regresso à Beira.

A rondar, na altura , os sessenta e cinco anos, o Alberto Araújo, de  compleição física ultrapassando os cem quilos, só raramente operava como condutor de safaris e quando o fazia (normalmente com convidados) limitava-se a pequenas deslocações aos tandos (planícies) e savanas abertas para  obtenção de troféus que não implicassem grandes caminhadas a pé, nomeadamente antílopes, zebras, bois-cavalo e aves que proliferavam  por ali como em poucas outras coutadas. Limitava-se a dirigir e controlar a sua Coutada a partir do acampamento central, dispondo de excelentes colaboradores como pisteiros,  motoristas, pessoal de apoio no mato e no acampamento e um leque de competentes caçadores guias.  Os safaris normais eram assim entregues a equipas sob comando dos White Hunters  e as tarefas de hotelaria (alojamento e alimentação) eram brilhantemente dirigidas pelo patrão que primava um tratamento de cinco estrelas aos clientes. Não resisto em referenciar um requintado e controverso hábito do Alberto Araújo,  único em Moçambique (e creio que em todo o mundo) na indústria dos safaris: O anfitrião e os caçadores guias, ao contrário do que acontecia no mato, não tomavam as refeições junto dos clientes no acampamento de Kanga N’Thole. Tinham uma sala própria e só começavam a comer depois do patrão ter servido os vinhos aos clientes! Esta prática, aceite disciplinarmente pelos caçadores guias, indignava a maioria dos clientes que gostavam de partilhar a mesa com os seus guias, pois consideravam que as refeições eram momentos de partilha de amizade e uma excelente oportunidade para analisarem os sucessos e insucessos dos safaris. Mas o nosso homem não transigia e não alterava esse regime, que, na sua óptica, era uma prova de respeito para com os seus clientes!
 Tal discriminação era aceite  pelos caçadores guias com um misto de compreensão e resignação, mas nem por isso deixavam de fazer o seu melhor junto dos  clientes, que dali saíam maravilhados com o resultado dos seus safaris e muitos voltavam nos anos seguintes.  Nunca ouvi uma palavra amarga desses “Príncipes da Selva” em relação ao seu patrão, de quem eram e continuaram a ser amigos. Embora pretenda falar deles em álbuns específicos,  fica aqui a minha admiração por esses competentes profissionais que ali conheci e com quem fiz amizades, nomeadamente, Victor Cabral, Francisco  Coimbra (Chico), Luís Santos, Mário Lopes, Carlos Cruz e Luís Mena.


Victor Cabral



Francisco Coimbra
(Chico)




Luís Santos





Mário Lopes com um turista caçador espanhol







Luís Mena (drtª) com o autor em 1963





Carlos Cruz com o astronauta James Lowel e Esposa



Durante o tempo de defeso da caça o Alberto Araújo não ficava inactivo. Organizava safaris de pesca, a partir da Beira, sendo também famoso nesta sua actividade com records obtidos em espécies raras como o Marlin.
Dado  o seu relacionamento privilegiado com as mais diversas figuras da vida pública, era anfitrião constante de individualidades de destaque, a maior parte para efectuarem caçadas patrocinadas ou apoiadas pelo próprio governo. 

Viria a falecer no ano de 1969, não resistindo à doença do foro cardíaco que o afectou nos últimos anos.
 Vive na cidade da Beira o seu único filho de nome Alberto Filipe Araújo, conhecido pelo “Búfalo”.  Tal como seu pai, é grande entusiasta pela caça e assume os laços sanguíneos como neto bastardo de D. Carlos, o penúltimo rei de Portugal assassinado em 1908, dois anos antes do fim da monarquia em Portugal.

(1) Pessoas muito próximas do Alberto Araújo, de entre elas o caçador guia   Victor Cabral, eram credoras da história  sobre os laços sanguíneos que ligam o Alberto Araújo ao Rei D. Carlos I de Portugal e cujos contornos se resumem nestes factos: D. Carlota, sua mãe, quando era a 1ª dama da Corte e íntima da Rainha D. Amélia, teve uma relação amorosa com o Rei e daí nasceu o Alberto Araújo. Com seis meses de idade foi para Moçambique  com a mãe que entretanto casara com o coronel Sousa Araújo e fora mandado pelo Rei em comissão de serviço para aquela ex-colónia portuguesa. O casal acabaria por se fixar na cidade da Beira, onde o Alberto Araújo cresceu e fez carreira como funcionário da companhia Trans Zambézia Raylls, tornando-se mais tarde caçador profissional. Do seu segundo casamento teve um filho, Alberto Filipe Araújo, conhecido pelo “Búfalo”,  que vive na mesma cidade e, tal como seu pai, é grande entusiasta da caça e também assume os laços sanguíneos (neto bastardo) com o penúltimo monarca português   assassinado em 1908, dois anos antes do fim do regime monárquico neste país.
Confrontadas as fotografias do Rei D. Carlos com a destes assumidos descendentes, são evidentes os traços físicos entre si. O Alberto Araújo ostentava com muito orgulho a fotografia do Rei no seu escritório!



Rei D. Carlos de Portugal (1863/1908)

Alberto Araújo e Esposa D. Olívia Santos no início da  década de 60   
(Foto gentilmente cedida pela  sobrinha Helena Raposo)

Alberto  Filipe Araújo
(Foto  gentilmente cedida por Helena Raposo)

 (2) A SAFRIQUE – Sociedade de Safaris de Moçambique -  foi constituída, em 1964, por iniciativa do Banco Nacional Ultramarino, tendo congregado as coutadas 1, 6, 7, 9, 10, 12, 13, 14 e 15 e os respectivos concessionários.  E em boa hora foi criada, visto que a partir de 1965 os safaris de caça em Moçambique foram considerados dos melhores em toda a África e a Safrique a melhor empresa do ramo em todo o mundo !
 (3) Os Marqueses de Villaverde - filha e genro do Generalíssimo Franco, Presidente de Espanha - efectuaram safaris de caça em Moçambique em 1963 e 1964, como convidados do Presidente da República Portuguesa. Estes safaris decorreram em diversas coutadas de Manica e Sofala, tendo o autor sido designado supervisor dos mesmos.

 
1.1 - O NASCIMENTO DA PROFISSÃO

A caça turística em Moçambique surgiu no início da década de 60 e resultou de medidas tomadas pelo Governo para acabar com a chamada "caça profissional", até então praticada em todo o território por algumas centenas de caçadores que se dedicavam ao abate de espécies de grande porte, sobretudo elefantes, búfalos, hipopótamos, elandes  e zebras, para venda da respectiva carne, peles e marfim. 

Alguns desses caçadores e outros que praticavam a "caça desportiva", conhecidos por "caçadores de fins-de-semana", apoiados pela legislação acabada de sair, requereram a licença de caçador-guia, modalidade/profissão  inexistente antes.

Os mais destacados, que já tinham acampamentos nas zonas de grande densidade de fauna bravia, levados pelo entusiasmo das notícias que chegavam de alguns países africanos, nomeadamente do Quénia relatando sucessos relacionados com os safaris de caça, disputaram entre si as melhores zonas do centro e sul do território, apresentando às autoridades os pedidos para nelas exercerem esta nova actividade - a exploração da caça turística. 

Foram assim criadas as "coutadas oficiais".



Mapa das coutadas elaborado posteriormente à extinção das coutadas números 1,2,3 e 17.  

Foi um processo infelizmente mal conduzido, já que a própria legislação na altura não assegurava as condições a que deveriam obedecer tais áreas. 
Sem qualquer estudo ecológico ou simples avaliação do potencial e da variedade de espécies existentes, foram criadas, em 1960, as Coutadas Oficiais para a realização de  safaris de caça, com base apenas nos dados apresentados por cada um dos candidatos a concessionários ! 
Nasceu assim o turismo cinegético em Moçambique e, em consequência disso,  uma nova profissão: O caçador guia.

  
  
 
1.2. - OS PIONEIROS
No centro do território – distrito de Manica e Sofala -  vieram a ser criadas 15 Coutadas oficiais, (numeradas de 1 a 15) e no sul, distrito de Gaza, mais 2 ( com os números 16 e 17). Foram concessionadas aos respectivos requerentes, a saber:

 
- Coutada 1  - Alberto N. Sousa Araujo (a) 
- Coutada 2  - Não concessionada (b) 
- Coutada 3  - Idem (b) 
- Coutada 4  - Moçambique Safarilandia (c)
- Coutada 5  - Jorge Alves de Lima 
- Coutada 6  - José Joaquim Simões 
- Coutada 7  - Idem 
- Coutada 8  - Clube de Caçadores da Beira 
- Coutada 9  - Agência Turismo Beira 
- Coutada 10 -José Joaquim Simões 
- Coutada 11-Amílcar Xavier Coelho 
- Coutada 12-Vergílio Garcia 
- Coutada 13- (d) 
- Coutada 14-Francisco Salzone 
- Coutada 15-Armindo Vieira 
- Coutada 16-Manuel Sarnadas 
- Coutada 17-José Afonso Ruiz(e)

(a) – A Coutada 1 foi extinta em 1969 e criada uma "Zona de Vigilância Especial" para integração no Parque Nacional da Gorongosa.
              
(b) – Estas Coutadas foram criadas como zonas tampão do Parque Nacional da Gorongosa e não foram concessionadas. Eram ali autorizados safaris a caçadores guias independentes e vieram mais tarde a ser extintas.

(c) -   A Coutada 4 foi extinta em 1973 por motivo da criação do Parque Nacional de Zinave.

(d) – A Coutada 13, por razões que estiveram ligadas a um desentendimento entre o seu inicial requerente, Miguel Guerra e os Serviços da Fauna,  só mais tarde veio a ser concessionada, por concurso público, à Safrique. Entretanto eram ali autorizados safaris de caça a caçadores guias independentes.

(e)
 – A Coutada 17 foi extinta em 1973 por ter sido criado o Parque Nacional do Banhine abrangendo a maior parte da sua área.
 
  


  
 
1.3. - Lista geral dos caçadores-guias que operaram em Moçambique antes de 1975

Nº 
NOME
Local de actuação 

1 
2 
3 
4 
5 
6 
7 
8 
9 
10 
11 
12 
13 
14 
15 
16 
17 
18 
19 
20 
21 
22 
23 
24 
25 
26 
27 
28 
29 
30 
31 
32 
33 
34 
35 
36 
37 
38 
39 
40 
41 
42 
43 
44 
45 
46 
47 
48 
49 
50 
51 
52 
53 
54 
55 
56 
57 
58 
59 
60 
61 
62 
63 
64 
65 
Alberto Novais  S. Araujo  
José Joaquim Simões  
Francisco Salzone  
Armindo Vieira  
Vergílio Garcia 
Amílcar Coelho 
Adelino Serras Pires  
Francisco Coimbra  
Augusto Luis Santos 
Joaquim Silva  (Jack) 
Mário Cabeça Lopes 
Mariano Ferreira  
Pierre Maia 
Carlos Costa Neves 
António Fajardo 
Francisco Martinho 
José Augusto S.Pires 
Victor Cabral  
Luis Lopes da Silva 
Carlos Cruz 
Amílcar Jorge 
Miguel Guerra 
Luis Cardoso 
Alberto Osório 
Luis Mena 
José Luis Barros 
Gilberto Barros  
Henrique Leitão 
Mário Damião de Carvalho 
Gilberto Lobo  
 James Chalmers  
Wally Johonson  
Michael Rowbotham  
Jorge Alves de Lima  
Werner Von Alvensleben  
Manuel Posser de Andrade  
Rui Quadros 
Amadeu Peixe  
Manuel Carvalho Figueira 
José Saraiva de Carvalho 
Manuel Rodrigues  
José Luis Tello (Picão) 
José Afonso Ruiz 
Harry Manners  
Manuel Sarnadas  
António Sá Mello  
Luis Pedro Sá Mello 
José La Puente  
Sérgio Pais Mamede 
Cândido Veiga 
Sérgio Veiga 
José António Pereira 
António Andrade 
António Monteiro (Kubitchek) 
Noel Jorge 
José Barreto  
Walter Johnson  
António Alfaro Cardoso  
George Dedek 
Sérgio Cardiga 
Janaka (Grego) 
António Augusto 
José Pereira  
Keneth Fubs  
António Moreno y Moreno
Coutadas de Manica e Sofala 
 Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Coutadas do Save (4 e 5) 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Cout. Limpopo (16 e 17) 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Cout. de Manica e Sofala 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem 
Cout. do Save e Limpopo 
Idem 
Idem 
Cout. Limpopo 
Cout. Manica e Sofala 
Idem 
Idem 
Idem 
Idem
NOTA: 
Esta lista foi elaborada com o apoio de: Dr Armando Rosinha; Luis Pedro Sá e Mello; Augusto Luís dos Santos, Nénè Vieira; Mário Lopes; Carlos Costa Neves e Adelino Serras Pires. Ficam aqui os meus agradecimentos a estes colaboradores, o primeiro ex-director da Fauna Bravia, o segundo da Nyalaland Safaris e os restantes ligados à Safrique. 
Trata-se pois de um recurso à  memória, nossa e deste conjunto de prestigiadas figuras que estiveram directamente ligadas à indústria do turismo cinegético em Moçambique, já que não foi possível recolher estes dados junto dos Serviços da Fauna  onde infelizmente não foram preservados os arquivos do período pré independência.    
Poderá, assim, haver uma ou outra omissão. A existir, ela é involuntária, pois  pretendemos  recordar aqui todos os caçadores-guias que actuaram com este estatuto, até 1975, data da independência de Moçambique. Estaremos pois, abertos à inclusão posterior de eventuais esquecidos, bastando que nos comuniquem os respectivos nomes.


Marrabenta, Julho de 2000 

Celestino Gonçalves 


 

NOTA FINAL:
Este Álbum foi publicado no ano 2000 no meu site www.geocities.com/Vila_Luisa/ - Fauna Bravia, Caça e Caçadores de Moçambique. Manteve-se activo até 2008, altura em que,  por decisão unilateral do servidor, foi desactivado.
Com algumas alterações introduzidas ao original, resultantes de informações e fotos entretanto recebidas ao longo dos últimos anos, a versão actual dá mais veracidade à história  do 1º caçador guia de Moçambique, Alberto de Sousa Araújo.

Marrabenta, Janeiro de 2011

Celestino Gonçalves




14 July 2016

167 - ENCONTRO COM O MESTRE MALANGATANA NA SUA CASA-MUSEU





CARTAS DA BEIRA DO ÍNDICO

(16)

ENCONTRO COM O MESTRE MALANGATANA

(Março de 2005)

- REPUBLICAÇÃO -
(Julho de 2016)



O Mestre como era há uns bons anos atrás!

Moçambique teve sempre personalidades de renome mundial, nomeadamente no desporto onde se destacaram nomes como Eusébio e Coluna e mais recentemente Lurdes Mutola campeã mundial e olímpica de atletismo.

Após a independência, em 1975, destacaram-se no mundo das artes e das letras duas outras personagens que são hoje a coqueluche deste jovem país: Malangatana e Mia Couto. Eles são as figuras de topo de uma vasta plêiade de pessoas ligadas à cultura de Moçambique, justamente porque as suas obras se tornaram muito conhecidas e atingiram grande fama praticamente em todo o mundo.

Como pessoas célebres que são, ganharam o estatuto de figuras públicas muito estimadas por toda a gente. Ambos foram dotados, para além das suas capacidades artísticas e intelectuais, do dom da simplicidade que o povo tanto aprecia. Numa palavra, eles são o orgulho dos moçambicanos!

Curiosamente, eles têm excelente relacionamento entre si e, para minha felicidade, ambos fazem parte do número dos meus bons amigos moçambicanos, conforme tive já a oportunidade de aflorar no meu site pessoal e em trabalhos anteriores inseridos em várias comunidades com sites na Internet. Eles se cruzaram na minha vida em situações diferentes, mas tão marcantes que me dão o direito de lhes reclamar alguns momentos de cavaqueira nem que para isso tenha de invadir os portões de acesso às suas casas!

Só que, em relação a Malangatana, as coisas não têm sido fáceis pois que não o encontrava a jeito há mais de quinze anos. Os seus afazeres e constantes viagens pelo estrangeiro não me proporcionaram uma única aproximação durante todo este longo tempo, apesar de várias tentativas que sempre fiz durante as minhas regulares estadias em Moçambique!

Sendo originário do povo humilde, Malangatana prima por ser um homem simples e modesto. Contudo, não é muito fácil encontrá-lo disponível uma vez que a sua ocupação profissional lhe absorve todo o tempo, quer no atelier a pintar e gravar, quer a viajar por esse mundo fora envolvido nas suas exposições pessoais ou a participar em congressos e colóquios do seu ramo. É ainda membro da Assembleia Municipal de Maputo, um cargo político que lhe trouxe imensas responsabilidades nomeadamente na recepção de delegações estrangeiras ou individualidades que se deslocam a Moçambique e cujo estatuto implica atenções especiais da parte do Governo. Ele é um digno anfitrião e um autêntico ex-libris da cidade capital e do próprio país!



O DESEJADO ENCONTRO


Finalmente, o tão desejado encontro aconteceu no passado dia 21 na sua casa atelier do bairro do Aeroporto, em Maputo, tendo para tal recorrido à intervenção do Mia que contactou o Mestre acabado de regressar de mais uma viagem a Portugal.

Como minha filha Paula também tem certo à-vontade junto deste ilustre personagem, foi ela quem completou os acertos finais para o encontro e fez questão de me acompanhar munida da “Olympus” para registar e colher imagens do consagrado artista e do seu magnífico museu.

Antes de tomarmos o caminho para aquele bairro tive ainda a oportunidade de reler as partes mais significativas dos textos do seu Livro-Álbum “Malangatana”, editado em 1998 e que felizmente me fora oferecido no último Natal pelo mano mais velho do meu genro Armando Couto. Isto para reavivar a memória em relação ao fabuloso palmarés deste ilustre moçambicano e ficar mais preparado para o visitar no seu habitat.


O Livro "Malangatana"


A rica biografia deste homem e as considerações sobre a pessoa e sua obra, feitas por consagrados críticos das artes e das letras, quer nacionais quer estrangeiros, expressas naquela excelente obra, deixaram-me francamente confuso sobre o sucesso do encontro que estava prestes a ter com o famoso pintor, sendo que ele agora é um ídolo de reputação nacional e internacional. Interrogava-me se ele me iria reconhecer e se não me dispensava mais que algumas palavras de circunstância para além dos cumprimentos da praxe!


Lá fui a meditar nas minhas dúvidas, confiante apenas nas faculdades persuasivas para dar a volta a eventuais dificuldades e evitar que o desejado encontro com o velho amigo acabasse numa frustrante jornada sentimental!


Ando na tua trás há mais de quinze anos!


Foram estas as primeiras palavras que dirigi ao velho amigo que nos aguardava no atelier de trabalho do rés do chão da sua grande residência, usando assim uma expressão popular muito em voga em Moçambique.


A sua reacção não se fez esperar com um “Bayete Gonçalves” e uma palmada na mão à boa maneira do cumprimento entre os jovens actuais, seguida de um prolongado abraço.


Bayete Gonçalves!


Afinal fui reconhecido e o à-vontade do nosso anfitrião foi tão manifesto que a breves momentos a descontracção era recíproca.



Que alívio!


O que se seguiu durante toda a tarde daquele dia memorável, foi para mim e para a Paula um autêntico deslumbramento! Um desfiar de recordações de um passado já com mais de meio século, desde que nos conhecemos em Marracuene, sede administrativa da sua terra Natal onde iniciei a minha carreira em Moçambique no longínquo ano de 1952. Ele tinha nessa altura 16 anos e eu 20!


Durante os anos que precederam a sua ida para Lourenço Marques, em 1956, Malangatana fez-se notar na vila pela sua participação em várias actividades culturais (música, danças tradicionais, artesanato) e desportivas. Naturalmente que os nossos encontros se sucederam nomeadamente no futebol que ambos praticamos e também na Administração onde ia com frequência tratar de assuntos pessoais ou visitar um seu parente próximo que ali trabalhava comigo. Depois de reavivarmos a memória citando factos e pessoas desses velhos tempos, nomeadamente dos administradores mais marcantes dessa época (Marques da Cunha e Granjo Pires), do padre Lourenço (que nos casou), dos Panguenes, dos Andrades, dos Lopes de Castro, dos Verdes, dos Bourlótos, dos Figueiredos (meus sogros), do velho Nunes (do Pavilhão de Chá), dos Faria Lopes e Lopes Marques (chefes de estação dos Caminhos de Ferro), dos Parentes, do Mendes (das excursões fluvias) e de outras figuras daquela bonita vila à beira do Incomáti, alargamos as nossas recordações ao período do pós independência quando ele era responsável do Departamento de Cultura do Ministério do Trabalho e eu adjunto da direcção dos Serviços de Fauna Bravia do Ministério da Agricultura, altura em que os nossos contactos foram mais frequentes pois estes Serviços forneciam o marfim de elefante para o sector de artesanato do mesmo Departamento.


Com a Paula numa das salas onde estão belos quadros e esculturas


A partir de 1990, data do meu afastamento de Moçambique para me fixar em Portugal, limitei-me a acompanhar, de longe, as notícias sobre a carreira fabulosa deste homem, que se tornou um dos pintores mundiais de vanguarda na actualidade, assim como escultor de grande mérito. A sua fama o tornou uma figura de grande prestígio, acumulando prémios e condecorações, incluindo a de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, de Portugal. A sua vastíssima obra (Pintura, Desenho, Aguarela, Gravura, Cerâmica, Tapeçaria e Escultura), encontra-se em vários museus e galerias públicas, bem como em colecções privadas, espalhadas por inúmeras partes do Mundo. Tem ainda pintados ou gravados imensos murais não só em Moçambique como noutros países africanos, da Europa e do continente americano. O seu espólio pessoal, de valor incalculável, enche literalmente toda a sua grande casa-atelier de Maputo, aguardando o seu próximo destino que será o Museu da “Fundação Malangatana”.




Aspecto parcial do atelier



Toda a actividade artística e social deste grande senhor não o afastou, contudo, dos contactos com o povo humilde e sobretudo das crianças. Na sua terra natal ele impulsionou um importante projecto cultural – Associação do Centro Cultural de Matalana – de cuja direcção é presidente. No seu bairro criou uma escolinha para as crianças aprenderem a pintar. Tem sido membro de Júris de vários eventos nacionais e internacionais das Artes Plásticas, mantendo a ligação à UNICEF relativamente ao Júri para os Cartões de Boas-Festas.

A sua próxima obra, que será a maior, é a sua própria “Fundação Malangatana”, que será erguida também na sua terra natal e para a qual já conta com o respectivo projecto do seu grande amigo, o arquitecto e pintor português Miranda Guedes (Pancho), um dos grandes impulsionadores da carreira deste artista na sua fase inicial quando era ainda um modesto empregado de bar e da cozinha do velho Grémio (o Clube de Lourenço Marques), de parceria com o Dr. Augusto Cabral, actual director do Museu de História Natural.


Crianças angustiadas

As ligações de Malangatana a Portugal são muito estreitas, quer no âmbito institucional quer no relacionamento com as pessoas que o acarinharam nos tempos do seu lançamento na vida artística. Aqui tem feito muitas exposições individuais e elaborou, no Pavilhão de Moçambique da Expo-98 de que foi Vice-Comissário Nacional para a área da Cultura, uma escultura móvel, bem como um bonito painel-mural.

O seu Livro/Álbum “Malangatana” é uma encantadora obra por onde perpassa toda a magia e esplendor de uma vasta colecção das suas pinturas, desenhos e esculturas. Foi numa das páginas brancas deste Livro que o Mestre pintou uma bonita aguarela assinalando a visita que lhe fiz e que simboliza a nossa velha amizade. A todo o tamanho da página do lado esquerdo escreveu uma mensagem que muito nos sensibilizou e que é uma evocação especial dos velhos tempos de Marracuene (ex-Vila Luisa), com especial destaque para as suas belezas naturais, para os hipopótamos e crocodilos do grande rio Incomáti e para as actividades turísticas da vila. Escreveu ainda, numa outra página, uma dedicatória para as comunidades de Maputo, Inhambane, Beira e outras, que aqui deixo reproduzida, como se impõe.


Na fase inicial da pintura


A Paula observando o Mestre quando executava a pintura e dedicatória no Livro


Dedicatória e quadro concluídos


A Mensagem para as Comunidades


Agradecendo ao Mestre


Antes de deixar a casa-atelier de Malangatana, percorremos todas as salas onde se encontram expostos muitos dos seus quadros e esculturas, obras estas que executou ao longo da sua carreira e que foi seleccionando para fazerem parte do seu espólio inegociável.


Subindo para o 1º andar da maravilhosa casa-atelier


A visita acabaria pelas cinco da tarde porque Malangatana tinha tarefas na Assembleia Municipal, até onde o acompanhámos a seu pedido. Antes de nos despedirmos dirigiu-se à Paula e repetiu o que já nos havia dito no seu atelier: não te esqueças que quero fazer uma festa convosco e restante família em Marracuene, na próxima vinda de teu pai a Moçambique!


A despedida junto do Município


Nas horas que se seguiram a este encontro meditei profundamente sobre aquela figura imponente e bonacheirona, na sua simplicidade e delicadeza de trato, na sua sabedoria, na sua obra que os críticos tanto elogiam, na aura que o envolve e como conserva tanto vigor e alegria de viver apesar de rondar os 70 anos e ultimamente ter sido sujeito a delicadas intervenções cirúrgicas!

Quando deixei este ilustre personagem à porta do Município de Maputo, naquela tarde inesquecível, sentia-me imensamente feliz e, tal como Mia Couto escreveu em 1986 a propósito de mais uma exposição do Mestre - “Sai-se de uma exposição de Malangatana com a sensação de que já não somos os mesmos que éramos quando entrámos”- , também fiquei com a sensação de que já não era o mesmo!

A bordo do avião da TAP, 24 de Março de 2005

Celestino Gonçalves



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NOTA FINAL


Esta “Carta” foi alinhavada a bordo do avião da TAP durante a viagem de regresso a Portugal, três dias depois do encontro com Malangatana. Só hoje, porém, é publicada devido a dificuldades que surgiram com o restabelecimento da minha conta Internet, entretanto interrompida durante as férias em Moçambique.


Ela é a última da série de 16 modestas crónicas que ao longo dos mais de cinco meses de permanência em Moçambique tive o prazer de escrever para as Comunidades onde muito me orgulho de participar.

Prometo voltar com outras notícias e imagens que trouxe na minha bagagem!

Um abraço do tamanho de Moçambique para todos os que tiveram a paciência de ver e ler estes escritos!


Amor - Leiria, 10 de Abril de 2005


Celestino



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NOTA ACTUAL


A repetição agora da publicação desta Carta nos meus Blogs (Blogger e Multiply) tem por objectivo facilitar a sua reprodução aos amigos que manifestaram o desejo de preservar os meus trabalhos de 2004/2005 nos seus arquivos pessoais ou mesmo nos novos blogs do Multiply de cuja administração fazem parte.

Maputo, Janeiro de 2009


Celestino Gonçalves

01 May 2016

166 - CRÓNICA DE UMA VISITA AO PARQUE NACIONAL DA GORONGOSA EM NOVEMBRO DE 2006


(REPUBLICAÇÃO)






I  N  D  I  C  E

                  l -  1ª Parte – VIAGEM E PRIMEIROS DIAS DE    
                                          ESTADIA NO PARQUE

                 ll -   2ª Parte – VISITAS À SERRA E OUTROS
                                           POLOS DE INTERESSE
                                           TURÍSTICO

                 lII -  AGRADECIMENTOS


                  IV – ANEXOS – FOTOS
                         
                       - Da primeira parte da crónica

                       - Da segunda parte da crónica



ARQUE NACIONAL DA GORONGOSA


 I - Primeira Parte 


VIAGEM E PRIMEIROS DIAS DE ESTADIA NO PARQUE

(de 9 a 19 de  Novembro de 2006)



1 – A VIAGEM  MAPUTO - CHITENGO
      
Depois da última visita que fiz ao Parque Nacional da Gorongosa, em Janeiro de 2000 e goradas que foram duas outras tentativas de ali voltar em  2002 e 2004, consegui finalmente, de 10 a 19 do corrente, visitar de novo este maravilhoso santuário da fauna bravia que em tempos foi considerado o melhor de África!

Fiz a viagem de Maputo para o Parque de carro, na companhia de um velho amigo  e companheiro de trabalho, o Dr. Paul Dutton, eco-biologista sul africano de reconhecidos méritos no campo da fauna bravia, que se mantém activo e presta serviço como consultor da Carr Foundation, do já famoso milionário norte americano Greg Carr que há dois anos a esta parte  vem  desenvolvendo um importante projecto de restauração e desenvolvimento no mesmo Parque.

Os cerca de 1.200 quilómetros que separam Maputo do Chitengo foram percorridos tranquilamente na razoável viatura do Paul, em dois dias, com uma reconfortante
paragem e pernoita em Inhassoro na casa de praia de um amigo comum, o Ricardo Teixeira Duarte.

Desde 1994 que não me encontrava com o Paul Dutton e esta foi  uma excelente oportunidade para um desfiar de recordações dos tempos (e foram muitos anos, antes e depois da independência)  em que ambos demos o melhor do nosso esforço em prole da defesa e conservação da vida animal selvagem em Moçambique.




2 . – CHEGADA AO PARQUE

Animado pelas constantes informações que vim recebendo ao longo dos últimos 10 meses, da parte do nº 2 do Projecto Carr, Vasco Galante,  cheguei ao Parque com  a curiosidade muito aguçada de conhecer os progressos  ali alcançados depois da minha ultima visita há cerca de 7 anos. A chegada ao Chitengo, no final da tarde do dia 10, foi sentida com alguma emoção, felizmente  não tão forte como aquela de que fui acometido em Janeiro de 2000 quando ali cheguei depois de 19 anos de ausência e encontrei ainda fortes vestígios de destruição causados pela guerra.

O encontro que tivera em Lisboa, em finais do ano passado, com Greg Carr e Vasco Galante, realizado justamente para falarmos do Parque, da sua história e do seu desenvolvimento,  sobretudo nas décadas de 60 e 70, fora o ponto de partida para uma aproximação e consequente colaboração com a direcção do Projecto da Carr Foundation e daí o honroso convite  que da mesma recebi para visitar o Parque sempre que desejasse.

Também a ligação que sempre tive com duas das principais figuras que desde 1994 têm estado à frente da administração do Parque, concretamente o Dr. Baldeu Chande e o Engº Roberto Zolho, dois bons amigos que sempre me dispensaram carinhosas atenções,  me dera coragem para voltar e me sentir ali como nos velhos tempos em que fui colaborador directo do mesmo Parque.

O ambiente que fui encontrar no Chitengo, de muitas caras novas, de cientistas e técnicos ainda provisoriamente instalados mas empenhados num trabalho sério e árduo, não me surpreendeu e rapidamente me familiarizei com as pessoas  que muito gentilmente me receberam e cada um à sua maneira quiseram ouvir-me sobre o passado histórico do Parque.

O jantar servido numa mesa comum e participado pelos responsáveis e todo o staff técnico e científico presente no Chitengo, foi a primeira das muitas atenções de que fui cumulado durante a estadia no Parque  e que muito me sensibilizaram. Naturalmente  que  o estatuto de decano dos serviços de fauna bravia, que me vem sendo atribuído por ser o mais idoso dos antigos funcionários dos serviços de fauna bravia ainda na ribalta, muito contribui para que este tipo de manifestações vão acontecendo, felizmente, na minha vida!




3 . – A PRIMEIRA VISITA AO INTERIOR DO PARQUE

 As actividades no Parque começam ao raiar do Sol, tal como antigamente e  isso  implica levantar cedo. Não se faz qualquer esforço pois também as normas de deitar se regulam pelo mesmo diapasão: cedo!

A primeira surpresa ao sair do bungalow foi o espectáculo dos babuínos (macacos-cão) que em bandos de algumas dezenas invadem sistematicamente o acampamento do Chitengo todas as manhãs, numa atitude de atrevimento que leva as pessoas prudentemente a desviarem-se do seu caminho! Também uma ou duas famílias de facoceros (javalis africanos) têm o mesmo hábito e sem receio dos humanos vagueiam pelo acampamento e se alimentam nos seus bem tratados relvados. Esta situação, que preocupa já os responsáveis do Parque, decorre porque devido à guerra que grassou na região o Chitengo fora abandonado  durante anos e naturalmente estas duas espécies ali encontraram boas condições de alimentação, nomeadamente nos frutos das mangueiras e  mafurreiras.

Planeado o primeiro passeio que se seguiu após o café e as torradas da manhã (madrugada queria eu dizer), tomamos assento num confortável  e bem apetrechado 4x4, juntamente com os meus companheiros de viagem de Maputo, Paul e Gilian, do Dr. Baldeu  Chande, da bióloga Alexandra e do Hendrik Pott, este o condutor do game drive  voluntário para esta que não é a sua habitual tarefa mas que gosta de fazer de vez em quando para desanuviar o espírito!

Os preparativos e a saída do Chitengo, a caminho dos tandos, por me serem ainda tão familiares, fizeram-me recuar quarenta anos e sentir-me como nos tempos em que isso era uma rotina muito agradável  porque se esperava sempre um dia diferente no interior do Parque.  E na verdade era isso que acontecia pois os muitos milhares de animais que povoavam estes tandos, savanas, lagos, rios e florestas, eram os nossos actores favoritos porque  nos proporcionavam espectáculos de rara beleza, como eram as lutas entre os machos, o acto de procriação, os nascimentos das crias, o banho dos elefantes e a forma como as mães educam e protegem os filhos,  o canto das aves mais barulhentas como a águia pesqueira, os calaus trompeteiros,  os francolins, as galinhas do mato, os toracos, as ibis e as rolas cujo eco vindo de longe é uma autêntica sinfonia que nos encanta! E quando o dia era mesmo de sorte, podíamos ainda deparar com coisas raras de ver como eram os leões a caçar (na Gorongosa normalmente só caçam durante a noite),  uma jibóia a engolir um antílope ou encontrar um daqueles grandes e cada vez mais raros elefantes, conhecidos por cambacos, que vagueiam distantes das manadas porque a lei da natureza dá aos mais novos força suficiente para os afastarem das fêmeas!

Voltar a estes sítios que tão bem conheci e que foram palco de muitos anos de trabalho, é muito reconfortante, pese embora o desalento que sinto pela escassez de animais que agora povoam o Parque.

Mas as surpresas agradáveis começaram a surgir logo que atingimos  o tando do Sungué.  Ali por perto da Casa dos Leões  vimos os primeiros animais, como impalas, inhacosos,  facoceros, changos e oribis. Ao longe, em várias direcções e a recortar o horizonte, divisamos silhuetas  de outros das mesmas espécies.

Este primeiro contacto com os famosos tandos da Gorongosa, após a minha última visita de há sete anos, deu para perceber que a recuperação dos animais da planície, embora lenta, é uma realidade, sobretudo para aquelas cinco espécies. O mesmo não se pode dizer de outras de maior porte como os búfalos, zebras, bois-cavalo e elandes que aos milhares povoavam praticamente toda a zona turística do Parque e que agora  estão ainda num processo lento de recuperação. Para estas espécies há mesmo um projecto de reintrodução  já iniciado com  búfalos vindos do Kruger Parque.

Transposta aquela  planície, onde se  presencia um dos mais belos pôr de Sol em Moçambique, com a silhueta da Serra da Gorongosa desenhada a Oeste, no fundo azul do céu, o nosso guia seguiu pela picada 4 que é uma das melhores rotas para encontrar leões e que conduz ao lago Urema. Algumas paragens para fotografar pequenos  grupos de Inhacosos, de impalas,  famílias de facoceros, antílopes isolados como changos e oribis  e aves de grande porte como o solitário e pachorrento calau da terra,  foram animando o grupo no percurso até ao miradouro do  Urema. Não vimos leões mas a certeza de que eles existem por perto e em bom número é já uma consolação!

Outra surpresa agradável ocorreu quando chegamos ao miradouro do lago Urema e constatamos que ocorrem ali três verdadeiros milagres: a presença já de muitas dezenas de hipopótamos, algumas centenas de crocodilos e, de pasmar, enorme quantidade de Inhacosos com efectivos a rondar os dois mil! Em Janeiro de  2000 contavam-se pelos dedos das mãos os Inhacosos e os crocodilos e havia apenas um tresmalhado hipopótamo!

Este fenómeno, quanto aos hipopótamos e crocodilos, justifica-se pelo facto das cheias que entretanto ocorreram e fizeram transbordar o rio Zambeze. Este grande rio é atravessado pelo Vale do Rift que faz ligação com o oceano Indico na região da Beira e passa precisamente no coração do Parque onde o Lago Urema é receptor das águas vindas do Norte e  albergue natural destes animais que sempre acompanham o curso das cheias.

Depois  de uma paragem  e de nos regalarmos com a paisagem do lago Urema vista do miradouro, seguimos a rota que passa pela lagoa do Paraíso, agora com pouca água devido à época seca que se atravessa (as chuvas aproximam-se), mas mesmo assim bem frequentada pelas espécies já referenciadas na planície do Sungué e por grande variedade de aves como os imponentes jabirus, os desengonçados marabus, as elegantes garças e cegonhas, as barulhentas ibis, as grandes sécuas, os gansos do Nilo, os vaidosos  grous coroados, os colhereiros na sua frenética faina de pesca, as galinhas d’água, os mergulhões, os pássaros martelo e uma infinita variedade de aves mais pequenas. Aqui a paisagem convida a bater muitas fotos e a observar os animais. É também o sítio ideal onde se ouvem com intensidade os silvos agudos das águias pesqueiras, tão característicos e penetrantes na imensidão das savanas e das planícies. 

Tomamos depois a picada 11 que acompanha a margem direita do rio Urema até à ligação da estrada Urema-Chitengo onde estivemos bem perto de um grupo de  cerca de 20 hipopótamos. Esta zona apresenta-se, tal como outras que visitei nos dias seguintes, bem regenerada  de vegetação espessa, com árvores e arbustos que constituem habitat preferencial para as espécies de floresta como  inhalas, imbabalas, porcos do mato, macacos, cabritos vermelhos, civetas, manguços e porcos espinho, que  ali já estão muito bem representadas e em relação às quais a caça furtiva em massa que se verificou nos anos de guerra civil não causou o impacto terrível verificado nas restantes espécies comuns no Parque, algumas delas levadas quase à extinção, como foi o caso dos elefantes, búfalos, hipopótamos, zebras , bois-cavalos e dos grandes e médios antílopes.

Estávamos agora na zona frequentada pelos elefantes, cujo número tem aumentado significativamente e atingem já mais de duas centenas, quando em 2000 rondava os 125 exemplares e formavam aquela que foi a primeira manada a regressar ao Parque depois da razia dos anos anteriores a 1994. A hora já avançada do dia e o calor que se fazia sentir não nos permitiu encontrar estes grandes paquidermes, de certo já recolhidos ao ambiente mais fresco da floresta distante das picadas.

Nos dias seguintes tivemos mais sorte!

O resto da manhã foi passada a observar alguns grupos de hipopótamos nos pontos de mais concentração de água ao longo do rio Urema. Tomamos depois a picada do Urema e fizemos os 25 Kms de regresso ao Chitengo sempre entretidos com o brusco e regular aparecimento dos busch animals, pois todo o percurso é revestido de densa e verdejante floresta!

Um dia gratificante e memorável!


Maputo, Dezembro de 2006





PARQUE NACIONAL DA GORONGOSA


     II - Segunda Parte 


VISITAS À SERRA E OUTROS POLOS DE INTERESSE TURÍSTICO

(de 9 a 19 de Novembro de 2006)


Quem visita actualmente o Parque Nacional da Gorongosa na condição de turista comum e o faça pela primeira vez, pode  voltar de lá plenamente satisfeito. Chegado ali pela manhã, pernoitar no Chitengo e regressar pela tarde do dia seguinte,   nos percursos turísticos seguidos pela pode ver muitos e variados animais das espécies que nos últimos doze anos têm  regressado e multiplicado nas imensas planícies, savanas, florestas, rios e lagoas do Parque.

Não é ainda, naturalmente (e todos sabemos porquê), a Gorongosa de outros tempos, pujante de grandes manadas e grupos de animais,  mas graças  às medidas de protecção que ali vêem sendo desenvolvidas desde 1994 que já se podem ver espécies de praticamente todas as que foram reduzidas até quase à extinção no período de guerra e nos dois anos que se seguiram ao acordo de paz de 1992.  Elefantes, búfalos, leões, hipopótamos, crocodilos, pivas, palpadas, impalas, changos, oribis, facoceros, imbabalas, inhalas, cabritos cinzentos e macacos, têm  já uma representação considerável nas áreas abertas ao  turismo e podem ser observados ao longo das picadas bem tratadas do Parque. No caso das pivas, que em poucos anos passaram de umas escassas dezenas a mais de duas mil, podemos considerar que é uma recuperação fantástica que a continuar neste ritmo em breve teremos todos os tandos repletos deste emblemático animal de planície, que antes da guerra atingiu mais de seis mil exemplares!

A par da boa representação daquelas espécies os visitantes podem contar com uma extraordinária fauna alada que continua presente como antes, enriquecendo sobremaneira o colorido das paisagens e contribuindo com os seus cantos para que ali nos sintamos na verdadeira selva africana!

Não é tão significativa ainda a recuperação de quatro outras espécies igualmente emblemáticas,  como as zebras, os bois-cavalo, as gondongas e os elandes, que são ainda em reduzido número e teimam em manter-se afastadas da zona turística,  onde outrora eram aos milhares nas planícies e savanas.

Também os chamados necrófagos, como hienas, chacais e os próprios abutres, que praticamente desapareceram do Parque devido à quebra da cadeia alimentar de que dependiam, tardam em aparecer justamente porque tal cadeia ainda não foi reposta. Sê-lo-à, certamente, quando os grandes herbívoros e os carnívoros como os leões voltarem a povoar a Gorongosa numa escala  que alimente e equilibre a mesma cadeia.

O projecto Carr Foundation, como já tive a oportunidade de dizer, foi como que uma dádiva dos deuses que surgiu há dois anos, altura em que, não  obstante algumas tentativas e abnegado esforço de dedicados técnicos moçambicanos de reabilitar o Parque durante os anteriores dez anos em que os apoios do próprio Estado e de organizações internacionais  ficaram sempre aquém das necessidades para o desenvolvimento de programas da envergadura dos ali em curso actualmente.   As  esperanças, todavia, nunca se desvaneceram durante esse período e o que ali foi possível fazer antes da chegada de Greg Carr pode considerar-se de muito positivo porque, sem dúvida, contribuiu  para salvar este maravilhoso santuário bravio.

A execução dos programas do Projecto de Restauração da Gorongosa, da iniciativa de Greg Carr e apoio do governo de Moçambique, visam  áreas que antes não foi possível abranger,  tais como reintrodução de espécies,  construção de novos acampamentos, centros de formação e de investigação, museu, escolas, postos sanitários, estância termal, etc., assim como a continuação de reabilitação das infraestruturas como acampamentos, pontes, estradas, pista de aviação, etc. Nestes dois anos de actividade do projecto, é já bem patente o progresso alcançado nessas áreas, com destaque para a construção de pontes na principal via de acesso ao Parque,  do   santuário de caça  (onde já foram colocados cerca de 50 búfalos importados do Kruger Park) ,  restauro de boa parte do acampamento turístico do Chitengo, abertura e limpeza da rede de estradas e picadas, etc.

 Outras acções decorrem num ritmo satisfatório, tanto na zona do Parque como na periferia, com destaque para a região da Serra,  considerada o pulmão do Parque porque dali vem praticamente toda a água que forma e alimenta o grande ecossistema da Gorongosa. A criação de viveiros de árvores nativas e até endémicas para a recuperação dos danos causados no revestimento florestal das encostas e até dos planaltos superiores da Serra, a formação e implantação de um corpo de fiscais e os estudos com vista à criação de uma indústria de ecoturismo  com a directa participação das comunidades residentes, são trabalhos já bem visíveis em Nhancuco, Canda e  outros locais, com aceitação das autoridades, incluindo das tradicionais que começam a compreender os objectivos do Projecto Carr que é facultar-lhes postos de trabalho e rendimentos tirando partido dos recursos naturais únicos que a própria Serra oferece.

Visível também nessas acções é a  formação, no Chitengo,  de agentes para a  fiscalização (estes não só para a Gorongosa mas para qualquer outra área de conservação do país). O programa de apoio às comunidades é outra das tarefas prioritárias que já apresenta resultados muito positivos sobretudo nas áreas da saúde, ensino e agricultura.

Os estudos já feitos e os que decorrem nesta fase do Projecto Carr, que prevê uma duração de 30 anos,  envolvem  cerca de duas dezenas de técnicos e cientistas, nacionais e estrangeiros, que,  em condições ainda precárias em termos de instalações, se multiplicam em acções no terreno e nos gabinetes, no sentido de se alcançarem o mais rápido possível os objectivos do Estado e da Fundação: a recuperação do Parque e o seu desenvolvimento a níveis nunca antes atingidos.

Todas estas actividades contam também com quase  três centenas de funcionários e trabalhadores moçambicanos, que estão imbuídos de um espírito novo e concomitante com o clima de entusiasmo que reina nos mentores do Projecto e nos responsáveis do Estado que em conjunto levam por diante esta obra admirável que muito vai dar que falar além fronteiras!

A direcção e acompanhamento de todas estas actividades são feitos pelo próprio Greg Carr, o americano que ali investe uma fatia da sua fortuna pessoal, sem qualquer propósito de lucros  ou de retornos. Um homem  que já era famoso pela forma como fez a sua fortuna mas que agora, graças ao projecto de recuperação da Gorongosa, se tornou mundialmente uma figura admirada como conservador da vida animal e amigo das populações em vias de desenvolvimento. A ele se deve, pois, a viragem de cento e oitenta graus operada nestes dois últimos anos e que conduz o Parque aos resultados previstos no seu projecto que é torná-lo de novo o melhor de África!

Durante a minha recente estadia no Parque, de 10 a 19 de Novembro último,  graças ao estatuto de convidado, tive  o privilégio de efectuar deslocações, de carro e de helicóptero, a locais aos quais o visitante comum ainda não tem acesso. O Dr. Vasco Galante, director das comunicações,  nem precisou que lhe fizesse qualquer pedido especial  pois organizou um programa que incluiu várias visitas, nomeadamente à zona turística e outros locais onde o projecto está  a desenvolver acções, como é o caso da  Serra da Gorongosa, das  quedas do Murombodzi, das falésias do planalto de Cheringoma e das  nascentes de água quente no Buè-Maria (futuras termas). Também visitamos o santuário de caça instalado do lado esquerdo da estrada pouco depois da entrada no Parque.

Depois dos primeiros contactos com os animais da zona turística, o Dr Vasco Galante levou-me no seu carro, juntamente com os meus colegas de viagem de Maputo para o Parque - o Paul Dutton e a Gilian - ,  ao primeiro daqueles passeios, precisamente às quedas do Murombodzi que ficam na nascente do rio do mesmo nome, a uma altitude de 900 metros na Serra.  Antes  de atingirmos este destino visitamos uma ex-colega e amiga dos primeiros anos pós independência, a Teresa Despiney, uma beirense licenciada em medicina veterinária e especializada em fauna bravia, que depois de ter trabalhado na EMOFAUNA (Empresa Moçambicana de Fauna) esteve em vários projectos do ramo  noutros pontos de África e agora, qual Diana Fossey, se isolou nas florestas da encosta da Serra da Gorongosa, não a proteger gorilas, que ali não existem, mas a desbravar mato, a plantar árvores, ananases e outras culturas, numa salutar comunhão com a natureza e com as comunidades rurais, um velho sonho que finalmente realiza e que só é acessível a pessoas dotadas de grande coragem e rara sensibilidade! A sua fazenda, situada a cerca de 500 metros de altitude, é atravessada pelo  rio Nhandare,  que nasce  lá no alto da Serra e traz  água  em abundância, mesmo na época seca e cujas margens conservam uma exuberante vegetação com árvores de grande porte. Um local de rara beleza onde fizemos uma pausa e  nos refrescamos  naquelas águas cristalinas, antes do  almoço vegetariano (com produtos da horta) que a anfitriã nos ofereceu e a outros membros do Projecto,   incluindo o próprio Greg, que entretanto ali apareceram de surpresa para igualmente visitarem esta intrépida sertaneja de quem todos são admiradores e amigos!
                      
Ainda no trajecto para as quedas o Dr Galante fez novo desvio pela povoação de Nhancuco, para nos mostrar os viveiros de árvores nativas destinadas ao reflorestamento das encostas da Serra, já em franca produção. Ali se desenvolvem, bem como noutras aldeias da periferia da Serra, actividades do programa de apoio às comunidades, bem como acções de fiscalização por parte do corpo de guardas especialmente preparados para o efeito.

A partir dos viveiros de Nhancuco continuamos a subir durante meia dúzia de quilómetros, agora por caminho mais íngreme e sinuoso até às quedas, um trajecto que só as viaturas 4x4 podem fazer enquanto melhor estrada não for construída. Os últimos  500 metros foram percorridos a pé visto que só existe (propositadamente  e por questões de salvaguarda do  meio ambiente) um carreiro que conduz ao rio, a uns cem metros a jusante das quedas. Ali chegados e depois de nos regalarmos com o maravilhoso espectáculo daquelas águas caindo directas e em cascata de mais de cinquenta metros de altura, por entre frondosas árvores, a tentação de nos banharmos é tão grande que alguns mergulharam, mesmo vestidos, nas piscinas naturais que se formam nas rochas dos vários patamares da falésia e do leito do rio. Os mais atrevidos chegam mesmo a suportar com o “chuveiro” vindo lá de cima, nas partes de  menor precipitação. Isto só é  possível nesta época do ano porque o caudal é baixo a comparar com a grande avalanche de águas da época das chuvas, que se mantém até Julho/Agosto.
Estava ainda bem viva na minha memória a extraordinária beleza deste local, que não visitava há mais de 40 anos!

O  regresso das quedas ocorreu ao fim da tarde  desse dia e na passagem pela vila da Gorongosa fizemos uma paragem para um refresco na pousada, um dos vários edifícios ali construídos na última década que antecedeu a independência pelo maior comerciante da região, o Dário Santos Mosca, pessoa muito conhecida e estimada pelas populações locais e com quem privei durante os anos de actividade  no Parque e posteriormente em Portugal enquanto viveu.

Não resisti em colher fotos das pinturas das paredes do bar, por serem alusivas à fauna bravia do Parque e terem sido feitas na década de 60 por um artista beirense – Maga - que conheci, o 
mesmo  que pintou, na mesma altura,  alguns murais nas paredes  dos bungalows do acampamento do Chitengo.

Mas a ida às quedas do Murombodzi não esgotou a minha curiosidade pelo resto da Serra, que na década de 60 conheci, sobretudo as encostas e planaltos da região norte quando efectuava operações de fiscalização e também durante um  demorado reconhecimento florestal a pé com o engenheiro silvicultor Aguiar Macedo e outro funcionário do Parque, o Luís Fernandes. Alguns dias depois da minha chegada ao Parque, o Dr Vasco Galante, dispondo já do helicóptero que entretanto  regressara da África do Sul, facultou-me  várias  deslocações utilizando este meio de transporte. Aproveitando  um trabalho de reportagem das actividades do projecto que o  jornalista António Elias, dos jornais Notícias e Domingo,  ali foi fazer na mesma altura, sobrevoamos e visitamos  locais como a própria Serra, as falésias do planalto de Cheringoma, os viveiros de Nhancuco, as nascentes de água quente do Buè-Maria, o santuário de caça e as áreas do Parque onde a recuperação dos animais é mais evidente.

O  voo à Serra proporcionou-nos logo à partida,  poucos minutos após a descolagem do Chitengo, um encontro com uma das duas  maiores manadas de palapalas já em recuperação no Parque,  muito próximo da zona turística. Cerca de meia centena destes elegantes antílopes negros  correram velozmente à aproximação do helicóptero,  mas logo o piloto se desviou para não lhes provocar mais instabilidade. Vimos  ainda um pequeno grupo de gondongas, também fugidias, durante a rota.

O sobrevoo da Serra emocionou-me sobremaneira logo que o aparelho atingiu os primeiros cumes a sul e começou e divisar-se na minha memória a ideia que conservava desta majestosa montanha de cerca de 30 por 20 Kms., com 1862 metros de altitude no seu pico mais elevado que é o Gogogo (a segunda mais alta do país). Essa ideia tornou-se completamente distorcida agora a observa-la de cima,  numa abrangência a perder de vista, com florestas, rios, vales e  planaltos do interior a formarem paisagens deslumbrantes, onde os verdes se multiplicam desde o mais carregado das copas das árvores ao mais desbotado de amarelo das planuras, passando pelo cativante esmeralda e pelas misturas esfuziantes das cores acre, amarelo e castanho das folhas de  muitas espécies florestais de altitude, autêntica simbiose de  tons que a natureza ali nos dá. Um  espectáculo soberbo, de rara beleza, que mexe com os nossos sentidos, que passou aos nossos olhos  nessa viagem  e que jamais se esquecerá!

Após tão emocionante sobrevoo o experiente piloto, o Berthus Reineke, que conhece já toda a região como as suas próprias mãos, levou-nos às encostas da Serra para vermos o que se pode classificar de grande calamidade para a conservação do meio ambiente e sobretudo das águas que generosamente escorrem  da montanha. Trata-se das actividades de garimpeiros que sulcam e abrem poços nos  leitos e margens dos rios (ao que parece à margem das leis) para retirarem ouro, deixando esses locais completamente desfigurados e poluídos com o mercúrio utilizado nessa mineração. Por onde passam esses exploradores fica um rasto de destruição e degradação dos solos ribeirinhos cujas consequências em termos ambientais e para a saúde das populações são muito graves. Vimos crianças brincando nas águas barrentas e envenenadas dos rios onde decorrem essas actividades!

Dali o simpático Berthus rumou aos viveiros de Nhancuco onde se fez a primeira aterragem para que o jornalista se inteirasse dos trabalhos ali em curso. De seguida retomamos o voo em direcção ao antigo acampamento da Bela Vista, um local muito bonito que outrora fora escolhido para um turismo selectivo,  com construções erguidas  durante os primeiros anos da minha actividade no Parque e que a guerra destruiu completamente. Disse-nos o Vasco, pelos intercomunicadores,  que em breve se iniciaria a recuperação desse acampamento.

Seguiu-se depois a rota das planícies da zona mais baixa, os chamados tandos, com sobrevoo repetido do lago Urema onde se aglomeram já algumas centenas de hipopótamos e crocodilos e muitos milhares de aves aquáticas com predominância de flamingos. Ali perto, nos tandos do Goínha, vimos sucessivas manadas de centenas  de pivas, o animal (antílope)  em maior recuperação desde a calamitosa destruição da fauna do Parque dos anos de guerra.

Uma vez ultrapassado  o lago   para sul,  o helicóptero entrou na zona turística de savana e florestas de galeria onde os elefantes encontraram ambiente (alimentar e de  tranquilidade) para se reinstalarem e reproduzirem depois do colapso que os  reduzira quase a zero nesta região nos  anos mais críticos que foram os últimos que antecederam o final da guerra em 1992 e os  dois seguintes, até 1994, quando o Parque foi alvo da maior chacina antes de ser recuperado definitivamente pelas autoridades da fauna. No ano 2000, quando ali estive, eram 125, numa só manada. Agora ultrapassam em muito as duas centenas, dispersos em mais grupos e até já aparecem os cambacos isolados! O piloto mostrou-nos uma dessas manadas mas fê-lo seguindo as instruções rigorosas de não voar muito baixo e circundar afastado para não provocar instabilidade nestes sensíveis e complicados animais.

O rumo seguinte abrangeu o sobrevoo do santuário de caça, onde estão  já em  franca adaptação meia centena de búfalos importados do Kruger Park. Minutos depois  aterrávamos junto das nascentes de água quente do Buè-Maria, um local de floresta densa muito perto  do rio Punguè e que o  Projecto Carr pretende desenvolver com infra-estruturas adequadas a uma estância termal.

O regresso ao Chitengo fez-se sobrevoando o rio Púnguè, sempre atraente com as suas águas rasgando os areais do seu leito agora em grande parte à vista por se estar na época seca. Foram mais de três horas, na sua quase totalidade passadas no ar, observando as  maravilhas que  tornam este o local cujo ecossistema  de características únicas é  considerado o mais completo  para a fauna e flora de todo o continente africano.

A visita às falésias de Cheringoma,  noutro dia da estadia,  foi mais uma jornada inolvidável, tanto pelo que nos foi dado ver do ar  (muitos animais e paisagens bonitas), como pela observação directa, no terreno, desta maravilha da natureza.
O helicóptero levou-nos ao ponto mais alto do planalto  onde nasce o rio  Nhandindi, que ali mesmo, através de milhões de anos,  rasgou as rochas calcárias e se despenha a mais de 50 metros, formando um conjunto de impressionantes falésias que ladeiam o mesmo rio até atingir as planuras do Vale do Rift, onde despeja as suas águas cristalinas nas barrentas do Mucombeze, depois se fundem com as do  Urema, do Ding-Ding e finalmente do Púnguè a caminho do Indico.
Será neste mesmo lugar que o Projecto vai criar um acampamento com características muito especiais visto que será vocacionado para turistas, estudiosos e   adeptos do contacto com estes fenómenos da natureza!

Noutras  ocasiões, de helicóptero e de carro, acompanhei ainda o Dr Vasco Galante e o jornalista António Elias  em deslocações visando essencialmente o encontro com elefantes e  leões. Tivemos sucesso quanto aos primeiros, mas de leões apenas encontramos os poisos já que por duas vezes chegamos atrasados alguns minutos em relação a outros visitantes que os viram, uns na picada 4, outros na 6.
Paciência, a sorte não nos acompanhou neste particular mas o facto real da sua presença já razoável no Parque é mais um consolo que ficou desta visita!

Dias depois do meu regresso a Maputo recebi  telefonemas do Dr Vasco e do Hendrik dizendo  que os  leões apareciam praticamente todos os dias, um dos grupos até com crias. Mandaram-me fotos, uma das quais aqui deixo porque se trata do animal que sempre foi e se mantém  como o emblema do Parque!

Entretanto,  numa tarde de pausa no Chitengo,  ministrei uma palestra aos alunos do curso de fiscais de caça que ali decorre integrado no programa de formação de agentes para os Parques Nacionais e Reservas do país.  Naturalmente que o tema abordado foi sobre a fiscalização e o combate à caça furtiva, baseado na minha experiência profissional de longos anos de actividade, tanto no Parque Nacional da Gorongosa (1963/1968),  como noutros pontos do norte, centro e sul de Moçambique.

No dia 19, à tarde e depois de mais um game drive na zona turística, parti para a Beira no helicóptero que igualmente levou o jornalista António Elias no seu regresso a Maputo.
Curiosamente o meu companheiro de viagem  na ida para o Parque, o Paul Dutton, também viajou no heli para a Beira, mas para ir  a uma consulta de urgência  face a problemas de saúde, felizmente sem gravidade, tendo regressado no mesmo dia ao Parque onde ficaria até à segunda semana de Dezembro.

Atordoado de tantas emoções vividas nos últimos 10 dias, mas muito feliz, regressei a Maputo, no dia imediato, no avião executivo do Greg Carr,  em companhia de 3 técnicos consultores sul africanos que regularmente se deslocam ao Parque.

Outras viagens se sucederam, ao sul e norte do país, tornando esta estadia em Moçambique das mais emocionantes de todas as anteriores!



Maputo, Dezembro de 2006

Celestino  Gonçalves

Fiscal de caça-chefe, reformado,  que viveu e trabalhou 
em Moçambique de 1952 a 1990


 





   lII -  AGRADECIMENTOS



- Ao Greg Carr, pelo convite que me fizera em finais de 2005, em Lisboa e pelas atenções que me dispensou e me fizeram sentir tão à vontade no Parque como nos tempos em que ali trabalhei!

- Ao Dr Vasco Galante, o grande colaborador, impulsionador e extraordinário entusiasta dos trabalhos de recuperação e desenvolvimento do Parque,  por todo o apoio e deferências generosas à minha pessoa, facultando-me uma estadia inesquecível!

- Ao Eng. Roberto Zolho, administrador do Parque, por mais uma vez me ter recebido com o desvelo e carinho de um filho!

- Ao Dr Baldeu Chande, outro dos “filhos” que não esquece os velhos que lhe deram as bases do seu conhecimento e que, mesmo assoberbado com as suas novas funções no Parque, não deixou de me dar “uma mãozinha” em alguns momentos da estadia!

- Ao Hendrik Pott, o simpático e incansável encarregado polivalente do Chitengo - cujo pai conheci e admirei como caçador e simultaneamente conservador da vida animal na província de Inhambane -, pelos cuidados e atenções inexcedíveis que teve com o velho durante a estadia no Parque!

- Finalmente,  ao meu particular amigo e ex-colega de trabalho, o consagrado eco-biologista Telford Paul Dutton, que, ido de Durban (Africa do Sul), onde vive, para o Parque da Gorongosa em missão de consultoria ao Projecto Carr Foundation, me deu boleia a partir de Maputo, encaixando-me (como sardinha em lata) numa nesga do interior do seu carro abarrotado de tralha para as suas actividades de campo!

A  todos um BEM HAJA!

Maputo, Dezembro de 2006

Celestino Gonçalves


 


   IV – ANEXOS – FOTOS
                         
    Da primeira parte da crónica









DA SEGUNDA PARTE DA CRÓNICA














































(FIM)

NOTAS: 
                1 - Esta crónica foi agora republicada face à extinção do servidor Geocities
                     em 2008, onde havia sido publicada e, ainda, por solicitação de vários amigos que 
                     desejam recordar a visita aqui relatada.

                2 - As legendas das fotos serão recolocadas nos próximos dias.


Lisboa, 1 de Maio de 2016

Celestino Gonçalves