03 May 2008
15 January 2008
33 - LIVROS SOBRE FAUNA BRAVIA, CAÇA E CAÇADORES DE MOÇAMBIQUE
Título
(XICO)
(Caçador desportista)
Edição em português: no prelo (Brasil)
1 - BREVES NOTAS SOBRE O LIVRO
No escritório-laboratório da residência da família Magalhães – uma das melhores da cidade - passámos muitas horas ao serão, revelando filmes e fazendo fotos e mapas ilustrados com desenhos dos animais típicos das respectivas áreas. Muitos destes trabalhos foram oficializados e alguns deles ainda estão em uso, nomeadamente os respeitantes aos Parques Nacionais, Reservas e Coutadas. O Xico era perito nestes trabalhos e executava-os com grande satisfação, nunca tendo cobrado por eles qualquer importância !
(*) - Álbum nº 1 da série "ÁLBUM DE RECORDAÇÕES" do meu site www.geocities.com/Vila_Luisa
Volvidos oito anos após aquela publicação, a promessa de voltar a falar do Xico e de seus saudosos pais cumpre-se agora. Faço-o com satisfação redobrada porque ao longo destes anos recebi imensas mensagens de amigos comuns para saberem notícias dele, alguns antigos colegas de escola que sem dúvida vão gostar de ter mais informações. E porque já visitei o Xico na sua terra de adopção, o Brasil, em 2006, em retribuição de três visitas que dele recebi aqui em Portugal, tenho motivos adicionais para enriquecer a pequena biografia que abriu os "Álbuns de Recordações" do meu site no ano 2000.
O sucesso das suas empresas depressa o tornaram uma figura bem conhecida e admirada não só na vila mas ao nível da província de Manica e Sofala que abrangia praticamente todo o centro de Moçambique (entre os rios Save e Zambeze), cuja capital era a cidade da Beira, a segunda maior do território. O desenvolvimento da pequena vila dos anos 40, transformada numa airosa e bonita cidade nos anos 50, muito se ficou a dever ao dinamismo e colaboração deste velho colono, que através de parcelamentos sucessivos e adequados permitiu a criação da zona industrial, aerodromo, campo de futebol, feira de exposições agro-pecuárias, laboratório de investigação veterinária e pequenas quintas para agricultura e habitação. Parte dessas parcelas, nomeadamente as de benefício público como o aeródromo, feira, campo de futebol e laboratório veterinário, foram por ele oferecidas ao Estado.
O maior e mais belo conjunto arquitectónico da cidade, constituído pelo prédio e cinema Montalto, construído no centro e com frente para as duas principais avenidas, integrou, para além de uma moderna sala de espectáculos, um espaçoso café, lojas, escritórios e apartamentos de habitação. Foi um dos mais arrojados projectos por si encabeçados, de parceria com outros dois bem conhecidos empresários da época, Engº Jaime Guedes (construtor civil e empreiteiro de estradas) e Jorge de Abreu (da Somocine e Hoteis Tivoli e Turismo de Lourenço Marques). A empresa que formaram - Sociedade de Construções Montalto - daria assim o nome a este complexo e ao próprio cinema que ainda hoje é a única sala de espectáculos da cidade. Mas a empresa que lhe terá dado mais sucessos, em termos financeiros, era a LICA - Luso Industrial Comercial e Agrícola, Lda, que comercializava internamente e exportava as ricas madeiras de Moçambique, preparadas nas duas serrações que possuía em Gondola e Inhamacoa. Este negócio, considerado dos mais rendosos no território, levava o velho Magalhães a deslocar-se com frequência ao estrangeiro, o que lhe dava a oportunidade de conhecer muitos países de todos os quadrantes e o tornava uma pessoa bem informada e esclarecida com quem dava gosto conversar.
A matriarca, D. Rosalina Barradas, de uma família com vários elementos igualmente radicados em Vila Pery, há muitos anos, tornara-se uma das principais damas da sociedade local, tanto pelo estatuto do próprio marido como pela simpatia que irradiava e pela sua acção benemérita junto dos mais desfavorecidos.
A casa da família, construída num vasto talhão na parte sul da cidade, não muito longe do centro, era das melhores vivendas de Vila Pery e estava discretamente protegida por muros periféricos com grades metálicas cobertas por espessas sebes de buganvílias e lantanas sempre bem aparadas. De piso térreo e arquitectura moderna ao estilo das moradias dos bairros chiques das cidades da África do Sul e da Rodésia, compunha-se de dois corpos unidos e em sentidos opostos. O interior, de divisões espaçosas e bem arejadas, era dotado de amplas portadas e janelas envidraçadas. No exterior e ao fundo do quintal, alinhavam-se os anexos de apoio constituídos por uma ampla garagem, escritório, dependência de empregados e estúdio fotográfico. Na parte da frente e à direita da casa estava um pequeno e airoso challet destinado aos trabalhos de costura de D. Rosalina, uma autêntica sala de visitas onde ela recebia e tomava chá com as amigas. Mais tarde o Xico construiu um pavilhão anexo à garagem onde instalou uma escola de judo, outra das suas grandes paixões e que alcançou grande sucesso na cidade, chegando a ter mais de três dezenas de praticantes! Os quadros, as molduras com fotos de família, os bibelôs, a tapeçaria e os arranjos de flores sempre viçosas, tudo disposto nos lugares adequados, condiziam igualmente com o ambiente sóbrio e funcional da casa. Na grande cozinha, as flores eram substituídas por vários cestos repletos de boa fruta tropical da região do planalto, dispostos ao longo das bancadas de mármores que ladeavam as paredes.
Durante os seis anos que residi em Vila Pery (1963/1968), fui frequentador assíduo da casa dos Magalhães, graças à amizade enraizada com o Xico que me facultava o seu pequeno mundo onde me sentia bem justamente pelo muito de comum que tínhamos, nomeadamente na área da fotografia que ele tão bem dominava e que também era um dos meus hobbys preferidos. No seu bem apetrechado estúdio passámos imensos serões, revelando filmes, fazendo fotos e trabalhando-as nas mais diversas formas, o que me permitiu aumentar os conhecimentos que já tinha nesta matéria.
Tudo se complicou com as medidas tomadas pelas novas autoridades, que decretaram, em 2 de Fevereiro de 1976, a nacionalização dos bens de rendimento como prédios, terrenos, ou qualquer bem imóvel com excepção da própria casa de habitação. A família Magalhães perdeu praticamente tudo, um verdadeiro império comercial, industrial, agrícola e imobiliário!
Uma velha espingarda de 1840, da antiga colecção do Xico, legalizada como arma de panóplia, incapaz de dar tiros há mais de cem anos e que ficara na casa dos pais dependurada na parede do escritório junto de alguns troféus de caça, foi o objecto do "crime" que levou ao novo conflito com as autoridades.
A cunhada Edite (irmã da esposa), ainda a residir em Vila Pery, avisou-o por telefone do que se estava a passar. O Xico e família não voltaram à sua terra abdicando assim de todos os seus bens em troca de liberdade. Ficaram na Rodésia, acolhidos pela cunhada Filomena (outra irmã da Fernanda) e marido que na altura trabalhava em Salisbury. A D. Rosalina, também avisada a tempo, já não viajou e disse adeus, para sempre, à sua bela casa, aos seus bens, à sua querida terra de Moçambique!
Durante esse tempo o Xico trabalhou primeiro nos caminhos de ferro rodesianos, em Bulawayo, operando no ramo da electricidade e depois na polícia de reserva. Esta última actividade foi-lhe imposta pelas forças armadas e era uma obrigação que abrangia todos os estrangeiros ali residentes precisamente para participarem no combate à guerrilha. Andou sete meses a expor-se aos perigos que eram cada vez maiores à medida que o tempo passava e isso o levou a deixarem a Rodésia em Julho de 1978. Entretanto, em 1977, a família ficou aumentada com o nascimento do segundo filho, o João Carlos!
D. Rosalina com os seus dois filhos Francisco (Xico) e João (John), junto das cataratas de Niagara - Canadá, em 1986, cerca de um ano antes do seu falecimento.
4 - O XICO NO BRASIL
Já ali radicado há cerca de dez anos, só em 1988 tive notícias dele através de uma prima, a Ana Maria, que também nascera e vivera em Vila Pery e partira com os pais para o Brasil, em 1975. A Ana Maria regressou em meados da década de oitenta a Moçambique, indo trabalhar no Ministério da Agricultura como secretária da direcção de recursos humanos do MONAP, um projecto nórdico onde curiosamente eu também estava integrado.
Foram boas as notícias sobre o Xico, que davam conta ter-se inserido e progredido no mercado de trabalho brasileiro, primeiro na cidade de Recife, até finais da década de 70 e depois em Fortaleza onde se fixou em definitivo e ainda vive actualmente num confortável e bem localizado apartamento em condomínio fechado que ali adquiriu. Reatamos assim os nossos contactos, trocando correspondência que avivou a velha amizade e conduziu ao nosso reencontro quando nos visitou com a família na nossa casa de Amor, em 1994!
Posteriormente, em 1996, voltou a visitar-nos ainda acompanhado da família, mas esta seria a última com a sua adorada esposa, visto que a Fernanda falecera em fins de 1999, vítima de grave e incurável doença. Mais uma tragédia na vida do Xico, que só chegou ao meu conhecimento depois da publicação do Álbum de Recordações do meu site, em Fevereiro de 2000. Não foi, por isso mesmo, referenciado este infeliz acontecimento na breve biografia que sobre ele ali publiquei.
Tal desenlace mudou radicalmente a vida do Xico, que ao longo de vinte anos havia reconstruído o seu lar em terras do Brasil e de algum modo atenuado o desgosto pelo que passaram e perderam em Moçambique. A perda da esposa abalou-o profundamente e só recentemente, graças ao seu abnegado espírito de luta contra as adversidades, conseguiu recuperar a moral que ficara profundamente abalada. Contou com a ajuda dos filhos e da Teresa, uma simpática cearense que tem um monte de virtudes que o encantaram para sua companheira!
Também se reabilitou profissionalmente já que na fase crítica da doença da Fernanda se viu forçado a suspender o seu emprego. Começou por concluir os estudos na área de engenharia industrial, obtendo a respectiva licenciatura, o que lhe permitiu actuar individualmente executando projectos de formação profissional desta mesma área. Por outro lado, obteve do Estado brasileiro a aposentação relativa aos vinte anos de trabalho em Recife e Fortaleza.
Finalmente, concretizei a promessa que há vários anos vinha fazendo ao Xico de o visitar na sua nova terra. Esta decisão foi encorajada também porque quis fazer uma surpresa a minha mulher que era festejarmos as nossas bodas de ouro de casados no Brasil!
Arrumei com antecedência as passagens e anunciei ao Xico as datas de chegada e regresso e confidenciei-lhe os planos. Em casa deixei correr o tempo e obtive a cumplicidade de uma sobrinha, por sinal costureira, que convenceu a tia a renovar o seu guarda-roupa já a pensar na próxima viagem a Moçambique, programada para o fim do Verão. Quase em cima da data de embarque entreguei-lhe um embrulho muito bonito com os bilhetes!
Chegamos a Fortaleza ao fim da tarde do dia 10 de Março de 2006, viajando através de um pacote turístico de uma semana, com instalação num hotel situado na avenida marginal onde se realiza a célebre feira de artesanato nocturna durante todos os dias do ano. Penso que a reacção que tivemos ao pisar terra brasileira não foi muito diferente da de todos os portugueses que visitam este maravilhoso país! De tanto ouvirmos falar dele, de tantas telenovelas que ao longo de décadas nos entraram em casa e de conhecermos a sua história como colónia portuguesa, até parece que estamos em casa. Ficámos extasiados perante a beleza daquela cidade, a quinta maior do Brasil em termos de população!
O casal (Xico e Teresa) lá estava no aeroporto e foi no seu carro que seguimos para o Hotel, um percurso de dezassete quilómetros sempre dentro da cidade e a uma hora de ponta que ali, naquele burgo de quase três milhões de habitantes, é coisa séria face ao mar de carros que circulam nas ruas e avenidas a perder de vista!
Impunha-se, à chegada ao hotel, um banho reparador para aliviar do cansaço da viagem e a troca de roupa por coisas mais leves visto que estávamos num clima tropical que é bem agressivo durante o dia (a média anual é de vinte e seis graus mas estávamos no período mais quente do ano, acima dos trinta) e que à noite raramente baixa dos vinte! E já mais descontraídos, tiramos a primeira foto com os nossos amigos e começamos a saborear a visita com um breve passeio ali mesmo em frente do hotel, no chamado calçadão da avenida Beira Mar, onde apreciamos a famosa feira de artesanato e nos refrescamos com uns apetitosos sumos de frutos naturais! A estadia em Fortaleza ultrapassou as nossas expectativas, não obstante a prévia preparação que fizemos lendo os sites sobre a cidade e as informações recebidas do próprio Xico. A grandiosidade e beleza arquitectónica da cidade, as imaculadas praias da região, o bom hotel onde nos instalámos, o clima quentinho tão do nosso agrado, a simpatia dos habitantes, os sabores da culinária, os bons frutos tropicais, o artesanato genuíno, etc., foram factores que tornaram a nossa estadia muito agradável e francamente inesquecível!
Mas sem o apoio e acompanhamento do casal, que todas as manhãs nos ia buscar ao hotel e nos levava a visitar os lugares mais significativos da cidade (exceptuando apenas o dia em que nos integramos no programa do pacote turístico de visita à praia de Cumbuco, situada a cerca de 40 Km), aquelas "férias" não teriam atingido tal plenitude! O Xico e a Teresa foram inexcedíveis levando-nos a conhecer não só os lugares onde o turista comum normalmente vai, mas outros mais recatados e sobretudo alguns pouco recomendados por questões de segurança como dois mercados rurais e uma favela onde melhor pudemos observar e contactar com o povo e a sua cultura. Felizmente nada nos aconteceu, talvez pela descontracção, pouca exposição e aparência de pobretanas com que nos apresentávamos!
Limitados ao tempo do pacote da viagem (8 dias e 7 noites), naturalmente que não pudemos visitar todos os pólos turísticos da cidade e arredores, como desejaríamos. Eram precisos muitos mais dias. Mesmo assim, aproveitamos bem esse tempo graças aos conhecimentos e eficácia dos nossos cicerones e ao genuíno Chevrollet do Xico, que só fracassou por momentos quando desabou sobre Fortaleza uma daquelas chuvadas tropicais que nós bem conhecemos de Moçambique e que afectou a parte eléctrica!
Visitamos locais típicos da cidade , como o Porto de Mar de Mucuripe; o mercado dos pescadores onde se vende o peixe e mariscos frescos vindos diariamente do mar; o mercado central da cidade, de quatro pisos, onde fervilha uma enorme multidão de gente ; o rio e parque do Cocó, muito belos; alguns bares e restaurantes da cidade e da avenida Beira Mar, onde saboreamos a boa comida nordestina: as praias de Meireles e Iracema, que são a bandeira da cidade; o novo e mega centro comercial onde os restaurantes fornecem a comida mais barata da cidade (que bela feijoada lá comi!); a zona colonial, toda ela bem conservada e vocacionada para o comércio em pequenas lojas muito frequentadas pela população e turistas; o castiço bar do capitão Mostarda, onde se bebe cerveja a rodos; o famoso Pirata, na praia de Iracema, onde passamos uma maravilhosa noite assistindo ao maior espectáculo de forró do Brasil; a praia de Cumbuco, uma das mais belas da região, onde comemos a melhor picanha na aldeia Brasil; a catedral de S. José; etc., etc.
Esta foto, tirada com o Pirata na sua famosa casa de Forró de Fortaleza, deveu-se ao facto do Xico e os filhos terem relações de amizade com este português de sucesso!
A excursão à praia de Cumbuco foi muito curiosa porque nos permitiu observar ao longo dos 40 Km do percurso uma paisagem muito igual à do litoral do norte de Moçambique e toda uma sequência de aglomerados populacionais onde é bem notória, pelo aspecto das construções, a diferença de nível de vida dos brasileiros: belos challets, isolados mas bem protegidos com muros altos e com grades electrificadas, misturam-se com pequenas e modestas casas! Aqui e ali aparecem urbanizações onde prevalecem os condomínios fechados, igualmente protegidos com muros e redes electrificadas!
Não obstante a roda viva em que os nossos amigos andaram para nos mostrarem o mais possível da sua cidade, eles excederam-se como anfitriães recebendo-nos e oferecendo-nos na sua casa excelentes refeições tipicamente nordestinas! A primeira vez coube ao Xico a confecção da refeição, uma novidade para nós: badejo no forno, um belo manjar que muito apreciamos! A segunda foi a Teresa a cozinheira: um belíssimo caril (lá não chamam caril) de camarão, que não ficou a trás do melhor da tradição moçambicana!
O calor humano não se esgotou no Xico, Teresa e João. Os simpáticos cunhados do Xico, a Edite e o António, que igualmente vivem e estão solidamente enraizados em Fortaleza, também nos acolheram na sua casa, um belo apartamento num moderno edifício em condomínio fechado no centro da cidade, obsequiando-nos com um requintado e apetitoso almoço!
Mas o ponto alto da estadia foi o momento em que, com os nossos amigos, na catedral de S. José e junto do altar do respectivo patrono, eu e a Lurdes nos congratulamos e agradecemos o percurso de 50 anos atingido nesse dia 17 de Março! Uma breve e singela cerimónia que foi seguida de um almoço num modelar restaurante, a última e apetitosa refeição nordestina antes do regresso a Lisboa ao fim da tarde desse dia.
Lá deixámos mais uma amiga, a Teresa, a simpática cearense que nos cativou pelo carinho que nos dedicou e também pela forma como tem contribuído, como companheira do Xico, para a estabilidade emocional deste grande amigo que tem vivido um dos dramas mais intensos entre as famílias que tudo perderam na antiga colónia de Moçambique, por razões que só podem ser atribuídas aos responsáveis do governo português que aprovaram a independência de forma leviana não acautelando no respectivo Acordo (Luzaka, Setembro 1974) os interesses e a própria segurança dos portugueses lá estabelecidos!
O Xico já está curado da nostalgia e saudosismo que o perseguiram durante os primeiros anos de estadia no Brasil. Apenas mantém o sentimento de revolta contra as autoridades que o perseguiram e forçaram a sair de Moçambique pois não compreende porque razão o fizeram quando ele era uma pessoa com um passado limpo, muito estimado pela população e se considerava um elemento útil ao país, tanto para fazer formação profissional na área da sua especialidade, como para dar aulas nas escolas secundárias e institutos, ensinar música, treinar desportistas, ou, simplesmente, deixarem-no prosseguir com o seu projecto agro-pecuário que tanto o fascinava!
O Brasil conquistou-o, soube aproveitá-lo e ele agora ama-o tão intensamente como amava a sua terra natal - Vila Pery, Moçambique!
O almoço de despedida
As belas frutas brasileiras!
O simpático João, que muito colaborou na nossa visita!
O irmão mais velho, o Rui, já casado, vivia na altura em S. Paulo.
A Teresa e o Xico, descontraídos à boa maneira afro-brasileira!
* * *
03 December 2007
32 - LIVROS SOBRE FAUNA BRAVIA, CAÇA E CAÇADORES DE MOÇAMBIQUE
SANTUÁRIO BRAVIO
Sub-Título
MOÇAMBIQUE - GORONGOSA - SAFARIS
Distribuidora
EMPRESA NACIONAL DE PUBLICIDADE
Avenida da Liberdade, 266 - LISBOA (*)
1 - BREVE APONTAMENTO SOBRE O AUTOR
Confessando a minha ignorância devo dizer que não conhecia este escritor que ostenta o pomposo nome daquele que foi um dos mais consagrados escritores portugueses de todos os tempos! E porque nenhum dado biográfico do autor consta do livro pouco mais posso adiantar nesta apresentação.
O que apurei é que, de facto, José Maria D'Eça de Queiroz é parente (não sei em que grau) do autor do "Crime do Padre Amaro" e de tantas obras famosas da literatura portuguesa! Este facto, só por si, justifica a admiração e atenções de que o mesmo foi alvo em Moçambique, nomeadamente no Parque Nacional da Gorongosa onde permaneceu algumas semanas e nas coutadas oficias.
Conheci-o pessoalmente, em 1963, quando ele e a sua equipa (esposa Maria Tereza e o fotógrafo Ludwig Wagner) arribaram ao Parque onde eu já trabalhava como colaborador directo do respectivo administrador, Dr. Amadeu Silva e Costa.
Um ano antes já o autor havia estado na Gorongosa, onde se entusiasmou com tudo o que viu e programou uma visita mais demorada e apetrechada para observar e colher material para a obra que acabaria por publicar em 1964.
Como se tratava de personalidade credenciada ao mais alto nível do Ministério do Ultramar, em Moçambique teve as portas abertas e com estatuto VIP em todos os pontos da sua estadia. A administração do Parque Nacional da Gorongosa colocou-lhe à disposição, inclusivè, viatura com motorista e um guarda acompanhante para as suas incursões diárias ao interior e zonas periféricas onde observou a mais fabulosa fauna bravia de Moçambique e colheu o material que faz parte do capítulo principal deste livro.
Trata-se de um livro-álbum, bilingue (portugês e inglês), de 351 páginas. Contém 270 fotografias, 100 das quais a cores e também alguns desenhos e vinhetas. Tem uma encadernação de excelente qualidade, com capa rígida forrada a tecido de cor beje, com título e desenho de uma impala gravados a cor de vinho. Está protegido com sobrecapa de brochura a cores com foto de um leão. Tem o formato de 0,29x0,22 e todos os exemplares foram numerados e assinados pelo autor.
O livro, todo ele escrito no estilo romântico que caracterizou muitos escritores que descreveram a África como local de deleite de aventureiros, caçadores, fazendeiros e exploradores, surge numa fase em que Moçambique atravessa um notável desenvolvimento no domínio do turismo ligado à fauna bravia, com destaque para o Parque Nacional da Gorongosa e coutadas de caça.
Palapalas no tando
27 November 2007
31 - LIVROS SOBRE FAUNA BRAVIA, CAÇA E CAÇADORES DE MOÇAMBIQUE
FAUNA SELVAGEM
E
PROTECÇÃO DA NATUREZA
EDITOR
AGÊNCIA GERAL DO ULTRAMAR
L I S B O A
Ano: 1973
1 - NOTA PRÉVIA DO LIVRO
"Realizou-se no Estado Português de Angola, de 17 de Novembro a 2 de Dezembro de 1972, a primeira reunião, a nível nacional, para o estudo dos problemas das da fauna selvagem e protecção da Natureza no ultramar português.
A sessão inaugural teve lugar em Luanda e os trabalhos da Reunião decorreram na cidade de Sá da Bandeira, com larga participação de individualidades - cerca de uma centena - em representação dos sectores público e privado da metrópole, de Angola e de Moçambique.
Por determinação do Ministro do Ultramar recaiu sobre o Gupo de Trabalho para o Estudo do Fomento Pecuário no Ultramar, o encargo da preparação, a nível central, desta Reunião. Simultâneamente nos Estados de Angola e de Moçambique funcionaram comissões provinciais que se ocuparam das tarefas relacionadas com a Reunião nos referidos territórios.
A agenda da Reunião era constituída por sete temas, conforme a seguir se discrimina:
1. - "Zonas de Protecção da Fauna Selvagem", seus aspectos gerais e especiais no domínio da conservação, melhoria, ampliação e constituição em função dos seus fins técnicos, sócio-económicos e turísticos.
2. - Patologia animal relacionada com a fauna selvagem.
- Turismo cinegético, de foto-safaris e de contemplação;
- em Coutadas;
5. - Legislação de base da "Protecção da Natureza no Ultramar Português" - Decreto nº 40 040, de 20 de Janeiro de 1955 -, e regulamentos consequentes, estabelecidos por outros diplomas legais.

A Comissão representativa de Moçambique foi constituída pelos sete elementos que estão em primeiro plano na foto acima, tirada durante uma sessão de trabalhos em Sá da Bandeira, a saber: Em primeiro plano: Engº José Martins Santareno, secretário provincial de terras e povoamento e presidente da Comissão; Em segundo plano da esquerda para a direita: Jorge Abreu, industrial de turismo (Hoteis Tivoli e Turismo e Moçambique Safarilândia); Dr. Armando Rosinha, chefe da repartição técnica da fauna; Dr. Eduardo de Castro Amaro, inspector provincial de veterinária; Engº Videira e Castro, director dos serviços de agricultura e florestas; Prof. Doutor Jaime Travassos Dias, director da faculdade de veterinária e do Museu Álvaro de Castro (actual Museu de História Natural); e Dr. Fernando Paisana, director dos serviços de veterinária.
(foto gentilmente cedida pelo Dr. Armando Rosinha)
Coube à representação moçambicana elaborar os trabalhos relacionados com os temas:
- VALOR ECONÓMICO DA FAUNA SELVAGEM
(relator o Dr. Eduardo de Castro Amaro);
- LEGISLAÇÃO BASE DA "PROTECÇÃO DA NATUREZA NO ULTRAMAR PORTUGUÊS"
(relator o Dr. Armando Rosinha);
- POLÍTICA E ESTRUTURAS CIENTÍFICAS - INVESTIGAÇÃO E EXPERIMENTAÇÃO
(relator o Prof. Doutor Jaime Travassos Dias).
Os restantes 4 temas foram apresentados pelos representantes da Angola: Prof. Doutor Carlos Neves, Prof. Doutor Aires Gonçalves, A. Leite de Magalhães e S. Newton da Silva.
3 - BREVE COMENTÁRIO
Contém este livro, de 305 páginas, a mais importante e esclarecedora matéria jamais produzida pela administração colonial relativamente ao estudo de medidas de protecção e exploração da fauna bravia nos territórios de Angola e Moçambique.
As experiências colhidas antes e depois da publicação do célebre Decreto Lei nº 40 040, de 20 de Janeiro de 1955 e a pressão internacional para que se cumprissem em Angola e Moçambique os tratados a que Portugal tinha aderido, nomeadamente os de Londes de 1933 (Conferência para a Protecção da Fauna e da Flora Africanas) e de Nova Delhi de 1969 (Xª Assembleia Geral da União Internacional para a Conservação da Natureza - UICN), levaram as autoridades coloniais a dispensar alguma atenção a estes problemas. A Reunião de Sá da Bandeira foi não só o corolário dessa atitude como também da persistente acção de um punhado de devotados defensores da fauna bravia e da Natureza em geral, entre os quais os que ali estiveram presentes.
As conclusões e recomendações ali produzidas constituem um verdadeiro tratado cuja validade não tem prazo. As gerações de técnicos e governantes, actuais e seguintes, encontrarão nestas mesmas conclusões e recomendações directrizes importantes para o sector, cuja implementação, aliás, já se vem verificando em algumas situações pontuais em Moçambique, desde 1994, como é o caso dos Parques da Gorongosa e Limpopo e Reserva do Niassa, para não citar outros projectos de menor envergadura.
A propósito do que acima refiro, recordo aqui um trecho do trabalho do Dr. Armando Rosinha (Tema 5, página189) onde este conceituado técnico que dirigiu o Parque Nacional da Gorongosa e os Serviços de Protecção da Fauna Bravia, antes e depois da independência de Moçambique, deixa uma mensagem à população e governantes deste país relativamente à importância destes recursos naturais:
"Pessoalmente, estamos sincera e decididamente convencidos de que Moçambique - se a sua população e os seus dirigentes assim o entenderem -, tem neste sector de actividade uma sólida alavanca em que pode assentar o seu desenvolvimento económico, contribuindo-se ao mesmo tempo para manter, desenvolver e legar aos vindouros um ambiente natural equilibrado e são onde a vida humana seja um prazer, e não, como vem sucedendo em muitos locais, infelizmente, um pesado fardo que milhares de seres arrastam penosamente."
Por último salienta-se a importancia que representou o Parque Nacional da Gorongosa nos estudos relacionados com as zonas de protecção da fauna selvagem e desenvolvimento do turismo. Foram apresentadas estatísticas sobre o seu movimento e receitas desde 1952 a 1971 e publicadas no livro excelentes fotos da sua fauna. O relator do Tema 4 - Turismo e Protecção da Natureza -, o angolano A. Leite de Magalhães, ao referir-se a este Parque disse ser "a galinha de ovos de ouro, o maior espectáculo do mundo e legítimo orgulho de competentes serviços do Estado de Moçambique"!
Este livro não esteve à venda por se tratar de uma edição para uso interno dos organismos estatais e privados ligados à protecção e exploração da fauna bravia.
A biblioteca do Ministério da Agricultura e Pescas de Moçambique conserva este precioso documento, que tem sido fonte de consulta de muitos estudantes e técnicos e continuará, em muitos aspectos, a ser um guia dos legisladores sobre as matérias ali recomendadas.
4 - ALGUMAS FOTOS DO LIVRO
Zebras do Parque Nacional da Gorongosa - Moçambique
As célebres e raras Palancas Reais endémicas de Angola
Aspecto parcial de uma grande manada de Búfalos -Marromeu, Moçambique
Elefantes da Reserva do Maputo - Moçambique
Leões do P.N.G.Novembro, 2007
Celestino Gonçalves
19 November 2007
30 - O PRIMEIRO ENCONTRO DE REPRESENTANTES DO PARQUE E DA FRELIMO
(SEGUNDA PARTE)
1 - INTRODUÇÃO
Como fiz menção na primeira parte deste trabalho, constituiu-se no Chitengo, em fins do mês de Julho de 1974, logo após a desmobilização do contingente de 120 homens da OPV, uma comissão de trabalhadores composta por elementos representativos dos diversos sectores da vida do Parque, para se analisar a situação e estudarem-se medidas adequadas para fazer regressar à normalidade as actividades que se encontravam praticamente paralisadas desde o “25 de Abril”.
A administração do Parque, que na altura estava desfalcada dos seus habituais responsáveis, nada podia fazer perante a indisciplina que se instalou no seio dos trabalhadores levados por uns quantos agitadores que se aproveitaram da confusão que a mudança política naturalmente provocou. Os caçadores furtivos encontraram o caminho aberto naquele reino sem controle e até no acampamento de Chitengo se ouviam com frequência os tiros que em pleno dia derrubavam os elefantes!
A única medida era pedir auxílio e esse só a FRELIMO, através dos seus comandantes militares, podia dar. Os voluntários da OPV, que ali foram instalados para garantir o funcionamentos dos postos de fiscalização, tiveram o pior dos comportamentos ao transformarem-se eles próprios em caçadores furtivos e, pior ainda, hostilizando e agredindo os responsáveis do Parque que os pretendiam impedir de cometer semelhantes transgressões.
A companhia da tropa portuguesa, instalada no Chitengo com a finalidade de garantir a segurança dos funcionários e dos turistas visitantes, recolheu os seus homens à caserna e deixou de operar, esperando apenas e ansiosamente, ordens para o seu regresso a Portugal.
Vivia-se no Chitengo um clima de incertezas até pela táctica da Frelimo que na região demorou em sair da mata com a desconfiança natural de quem manteve uma guerra tantos anos sem tentativas credíveis para um acordo final em consonância com os seus objectivos.
Ficar de braços cruzados a ver os efectivos dos animais mais representativos a diminuírem dia após dia, era uma situação incomportável para um punhado de fieis guardiães do Parque, precisamente aqueles que formaram a comissão e deram a sua contribuição para as medidas a tomar. E estas eram de contactar rapidamente os responsáveis das bases da FRELIMO, que se constava estarem algures na Serra da Gorongosa e na região de Bué Maria.
Receava-se contudo que qualquer iniciativa nossa, sem contactos prévios, viesse a ser mal sucedida, pelo que resolvemos procurar a pessoa mais indicada, o Mosca de Vila Paiva. Ele nos disse que iria mandar um emissário à Serra e logo obtivesse resposta do comandante da Base nos contactava.
Entretanto amadurecemos a ideia de preparar uma mensagem para mandarmos pessoalmente, por um ou dois trabalhadores que eventualmente se dispusessem a tal missão. Tal documento ficou concluído em 4 de Agosto e dele se fizeram várias cópias, mas voluntários para a arriscada tarefa de entrega não surgiram. Consultados os mais maduros e sensatos, todos estavam muito cépticos quanto à reacção dos combatentes e não aceitaram tal missão.
Cerca de uma semana depois do apelo que fizemos ao Mosca recebemos deste, no dia 10, o recado que muito desejávamos. Tinha a promessa do comandante Cara Alegre de visitar a Vila no dia seguinte!
E lá estivemos no memorável encontro! Como chefe da delegação e depois de apresentar ao comandante Cara Alegre os companheiros ali presentes, li em voz alta e com a emoção que me acompanhou desde o início da missão no Parque, a mensagem que ele e os presentes escutaram com grande atenção e aplaudiram no final. Este responsável da FRELIMO, que ali prometeu enviar esta mensagem ao seu comandante máximo, Samora Machel, garantiu-me, mais tarde e já em Maputo, que este a recebeu quando estava em Luzaka com a delegação da FRELIMO para a assinatura do acordo com os representantes do governo português – 7 de Setembro de 1974 –, que conduziu Moçambique à independência.
Esse documento, que felizmente faz parte do meu arquivo e já resistiu 33 anos, por ter sido batido em stencil e copiado com tintas e em papel de pouca qualidade, está mal conservado e não dá reprodução fiel, pelo que a sua cópia foi a solução. Aqui fica, tal como o seu anexo.
2 – A MENSAGEM ENTREGUE À FRELIMO
MENSAGEM DOS TRABALHADORES DO
PARQUE NACIONAL DA GORNGOSA
AOS COMBATENTES DA FRELIMO
Prezados camaradas!
Chegou a hora de darmos as mãos para a construção do Moçambique Novo, pelo qual vós lutais há tantos anos de armas na mão!
Chegou a hora de reconstruir esta Terra, tão abalada por treze anos de uma guerra contra os governantes colonialistas!
O novo governo português, depois de ter demitido aqueles governantes no histórico golpe de Estado de 25 de Abril, abriu já o caminho para a total independência de Moçambique.
O General Spínola – novo Presidente de Portugal – no seu memorável discurso de 27 de Julho findo, proclamou o direito dos povos africanos de Moçambique, Angola e Guiné à total independência.
Nessa proclamação disse solenemente:
“…………PODEM AGORA OS SOLDADOS DE AMBOS OS LADOS ARRUMAR
AS ARMAS E DAREM AS MÃOS PARA EM PAZ CONSTRUIREM UM PAÍS
NOVO…..”
Logo após aquela data, em todo o Moçambique se tem festejado a vitória do seu Povo, conduzido pela FRELIMO ao longo destes anos de luta!
O cessar fogo é uma realidade em muitos pontos do território, havendo em muitos lados uma leal colaboração entre as tropas da Frelimo e os soldados portugueses, que retiram as minas das estradas e confraternizam nas próprias bases e aquartelamentos.
A guerra acabou finalmente, para bem de todos, porque redundou na mais justa das vitórias: a independência do Povo de Moçambique.
Só quem não recebe notícias pode ignorar o que se passa. É preciso que todos saibam: Moçambique é uma Nação Livre!
Nesta hora de alegria para o povo moçambicano, todos os trabalhadores do Parque Nacional da Gorongosa, reunidos especialmente para elaboração desta mensagem, vêm manifestar o seu regozijo por ter acabado a guerra e declararem o seu firme desejo de colaborar com o futuro governo moçambicano na reconstrução desta próspera Terra por forma a nela SER ERGUIDA A Nação que todos ambicionam.
Nesta tarefa, que só é possível na paz, todos nós temos um papel importante.
Nós, os homens e mulheres que trabalham no Parque Nacional da Gorongosa, queremos ardentemente participar na obra que vai seguir-se.
Dentro da missão que nos compete – zelar pelo património faunístico da Nação – solicitamos a melhor compreensão de todos, camaradas da Frelimo e residentes na região do Parque.
Às pessoas menos esclarecidas sobre a verdadeira razão da existência do Parque da Gorongosa, desejamos informar que ele representa uma riqueza da Nação Moçambicana; que essa riqueza pertence ao povo moçambicano em geral e não aos que aqui trabalham; que os animais que aqui protegemos constituem o símbolo dessa riqueza; que é dever de todos nós conservar na Terra os Parques Nacionais onde esteja garantida a continuidade dos representantes de todos os seres vivos, para os legarmos às gerações vindouras; que o Parque da Gorongosa é e será sempre o melhor reduto da fauna em Moçambique; que este Parque, como “Sala de Visitas”, há-de ser motivo de orgulho de todos os moçambicanos quando utilizado na sua verdadeira finalidade (recepção de amigos, exploração turística a nível internacional, manifestações de carácter turístico, cultural e científico, etc.); que o Parque bem organizado, como estão os famosos Parques da Tanzânia, Kénia, Uganda e outros países independentes de África, muito contribuirá para que Moçambique acarrete com preciosas divisas estrangeiras para os seus cofres, como sucede naqueles países, nomeadamente no Kénia onde o turismo deste género fornece uma das principais receitas ao Estado.
Também o futuro governo de Moçambique independente há-de conservar e desenvolver este maravilhoso Parque, construindo nele as necessárias estruturas com vista ao progresso que em todos os sectores se irá verificar em todo o território.
Repetimos: O Parque Nacional da Gorongosa será um dos motivos de orgulho do povo moçambicano e as próprias populações vizinhas, que naturalmente serão respeitadas nos seus direitos, muito virão a beneficiar dele.
Lembra-se aqui, com muita satisfação, que numa das recentes emissões da “Voz da Frelimo”, foi feita referência ao Parque da Gorongosa como sendo “uma mina de Moçambique”. Isto dá-nos a consoladora certeza de que os responsáveis pela futura administração estão absolutamente informados sobre o valor deste Parque e que para o mesmo reservam já um plano de conservação adequado.
É apoiados neste conceito que nós, trabalhadores do Parque, sentimos ânimo e confiança nos futuros governantes e nos propomos dar todo o esforço na tarefa que vai seguir-se.
Pedimos pois a melhor compreensão para o nosso trabalho e o respeito pelas funções que nos atribuíram, sobretudo nesta fase de transição, pois temos a certeza que no futuro não nos faltará uma directriz orientada segundo os melhores interesses da Nação.
Neste momento, em que muitos – ou quase todos – habitantes da região ignoram o valor e a finalidade deste Parque, podem existir alguns ressentimentos contra os nossos guardas e fiscais, por proibirem a caça. Pois ninguém, depois de esclarecido, poderá levar a mal termos cumprido as nossas obrigações. Fazemo-lo pensando sempre no futuro, podendo nesta altura constituir um motivo de orgulho para todos quantos, de uma forma ou outra, contribuíram para legar ao Moçambique Independente tão valioso património, hoje em dia tão importante como os restantes que constituem a riqueza desta Terra.
Queremos prestar este esclarecimento aos nobres soldados da Frente de Libertação de Moçambique, nesta hora do “apertar de mãos”, para que fique inequivocamente conhecida a posição que todos os trabalhadores do Parque Nacional da Gorongosa têm assumido na defesa dos interesses comuns e o seu propósito de continuarem a pugnar pelo património da Nação Moçambicana.
Desfeitas possíveis más interpretações que porventura se tenham arreigado em consequência da falta de esclarecimento sobre a orientação do pessoal ao serviço no Parque Nacional da Gorongosa, todos nós pedimos que seja feita a aproximação. Necessitamos dela para solucionar problemas que presentemente ameaçam a vida do Parque, tais como os relacionados com a repressão à caça dos elefantes praticada por furtivos vindos das cidades, que aproveitando-se da situação confusa praticam as maiores barbaridades para obterem lucros fáceis.
É preciso salvarmos o Parque desses furtivos. É preciso reestruturar rapidamente a fiscalização nos postos ora abandonados por motivos que neste momento já não têm razão de existir.
Para tanto precisamos do auxílio da FRELIMO, a exemplo do que sucede noutros pontos de Moçambique.
Quanto mais tarde entrarmos no bom caminho, da paz e da fraternidade, maiores serão os prejuízos para o património que aqui estamos a defender e consequentemente para a economia da Nação Moçambicana.
CAMARADAS !
A vossa colaboração é urgente. Ajudem-nos a proteger o Parque dos reaccionários, que Aproveitando-se da presente situação não só abatem a caça para negócio como ameaçam destruir os nossos acampamentos.
Temos instalações a defender desses “furtivos”, como seja a Bela-Vista, onde há casas que custaram muito dinheiro e muito trabalho a todos nós.
Pretendemos que todos os acampamentos voltem a ser ocupados tranquilamente por nós próprios, na proporção que era hábito para assegurar a fiscalização das respectivas áreas.
Sem a vossa ajuda, porém, a tarefa é não só difícil como mal interpretada.
Não queremos pegar em armas – as nossas armas habituais são as que utilizamos na defesa contra eventuais ataques de animais – para defender este valioso património. Queremos sim o entendimento, nesta hora de transição, que é a hora em que os homens terão de se conhecer.
Venham pois, camaradas, dialogar sobre a melhor forma de todos unidos garantirmos a continuidade da riqueza e a construção de um Moçambique Novo.
De agora em diante aguardamos a vossa vinda, as vossas mensagens de amizade, os vossos encontros fraternos, para juntos confraternizarmos na paz e traçarmos um novo rumo, uma vida melhor.
Julgamos não terem qualquer dúvida na nossa honestidade e o facto de nunca termos sido guerrilheiros bem atesta a melhor das nossas intenções, embora também estes já tenham deposto as armas e aguardem a união total.
A nossa missão não pode ser confundida e nunca se emiscuiu em problemas da guerra. Servimos sempre a causa da fauna e queremos continuar fieis à mesma.
Apelamos para a vossa compreensão, pois estamos numa luta de interesses paralela à vossa: a luta por Moçambique livre, independente e próspero.
A História há-de registar toda a epopeia destes treze anos de luta heróica para tornar Moçambique independente. Estamos todos crentes que os vindouros acrescentarão nela um capítulo próprio em homenagem aos bravos soldados que ajudaram a salvar o mais belo santuário de caça de todo o Mundo, que é esta nossa – de todos – GORONGOSA.
Aqui os esperamos, camaradas da FRELIMO, no Chitengo ou em qualquer outro ponto do Parque, na certeza que virão na paz, para “darmos as mãos” e resolvermos os nossos problemas.
Assim, todos os trabalhadores do Parque Nacional da Gorongosa vos saúdam e gritam bem alto:
VIVA MOÇAMBIQUE LIVRE!
VIVA A FRELIMO!
VIVA A PAZ E A FRATERNIDADE!
Chitengo, 4 de Agosto de 1974
A COMISSÃO DE TRABALHADORES
Assinados:
1 – Celestino Ferreira Gonçalves, fiscal de caça-chefe
2 – Joaquim Pedro Rato Martins, fiscal de caça de 1ª classe
3 – Pedro David Ernesto Manussos, fiscal de caça de 2ª classe
4 – Lourenço Rodrigues, guarda de Parques, Reservas e Coutadas
5 – Chico Natal Alfredo Candeeiro, motorista
6 – Manuel Chimoio, motorista
7 – Batage Vasco, operador de máquinas
8 – Castigo Mamunanculo, servente de 1ª classe (guarda)
9 – Francisco Pranga, servente de 1ªclasse (guarda)
10 – Alberto Matambo, servente de 1ª classe (guarda)
3 – O ANEXO DA MENSAGEM
O QUE É O PARQUE NACIONAL DA GORONGOSA
E AS RAZÕES DA SUA EXISTÊNCIA
- Criado há cerca de 40 anos – primeiro como Reserva de Caça – tem o seu coração no vale do rio Urema e Alonga-se às terras vizinhas de Cheringoma e Gorongosa, ocupando uma área de cerca de 4.000 Km2.
- É povoado de uma abundante fauna, onde se destaca uma elevada representação de Elefantes, Hipopótamos, Búfalos, Inhacosos, Zebras, Bois-cavalos, Leões, Impalas, etc..
- É mundialmente conhecido e tornou-se famoso pela beleza natural que encerra e variadíssima fauna que alberga. Os seus Leões constituem autêntico “ex-libris” de Moçambique, pois deixam-se fotografar a escassos metros das viaturas.
- No campo turístico é de longe o principal cartaz de Moçambique.
- No campo científico serve os vários ramos ligados à zoologia, biologia, ecologia, botânica, etc..
- No campo cultural proporciona a divulgação da vida selvagem às camadas estudantis e de todos que nutrem interesse pelos problemas da natureza.
- No campo económico representa uma fonte de receitas em divisas estrangeiras, através da exploração turística e futuramente na venda de animais para jardins zoológicos de todo o mundo.
- É servido por um acampamento central – CHITENGO – onde existem instalações para cerca de 150 turistas.
- Tem diversos outros acampamentos na sua periferia, destinados essencialmente a fiscalização.
- Trabalham no Parque cerca de 130 empregados, entre brancos, mistos e negros (estes em maior número), que executam as diversas tarefas de administração, fiscalização, oficinas, obras, maquinaria e viaturas, arranjo de picadas, manutenção de acampamentos, etc..
- Nos últimos anos de normal funcionamento recebeu em média 26 mil visitantes por ano.
- Tem uma rede interna de picadas com cerca de 500 Km.
- É servido por uma pista para aviões do tipo “táxi aéreo”.
- A ligação rodoviária para o exterior é feita por um ramal de 11 Km. A partir do portão de entrada até à estrada asfaltada Centro-Norte.
- No acampamento do Chitengo existe luz eléctrica fornecida pela rede exterior da SHER.
- No mesmo acampamento há uma estação telégrafo-postal dos CTT, com telefones para o exterior tipo VHF.
- Há uma Escola Primária, Posto de Socorros , Campos de Jogos e duas Piscinas.
Chitengo, 4 de Agosto de 1974
DISTRIBUIÇÃO:
Comandantes e outras autoridades da FRELIMO
da região da Gorongosa e Cheringoma




Jantar de despedida do Luís Fernandes (adjunto do administrador do Parque) e Esposa, Zilda (professora do Chitengo) quando foram de férias em 1974, antes do "25 de Abril". Eles voltariam depois mas por pouco tempo.

As célebres presas de elefante que em 1977 foram transferidas do Parque para o Palácio da Presidência em Maputo e depois para o Museu de História Natural, onde se encontram. Na imagem pode ver-se outro dos resistentes de 1974, Pedro Manussos, também já falecido.
* * *
Novembro, 2007
Celestino Gonçalves
18 November 2007
29 - O PRIMEIRO ENCONTRO DE REPRESENTANTES DO PARQUE E DA FRELIMO

1 – O ENCONTRO
A luta armada que a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) desencadeou durante dez anos (1964/1974), com vista à independência de Moçambique, viria a terminar pouco depois do golpe militar em Portugal em 25 de Abril de 1974, mais concretamente depois de assinado o Acordo de Luzaka em 7 de Setembro do mesmo ano entre representantes do governo de Lisboa e a delegação da Frelimo chefiada pelo seu presidente Samora Moisés Machel.
Desde 1970 que a guerra iniciada no norte havia atingido o centro de Moçambique e o Parque Nacional da Gorongosa viria a ressentir-se devido a algumas acções da Frelimo, nomeadamente depois de um ataque intimidativo às instalações do acampamento do Chitengo, em 1973, quando o mesmo estava repleto de turistas. Esta situação levou as autoridades coloniais (civis e militares) a colocar no Parque uma Companhia de tropa portuguesa e um grupo equivalente em número de homens armados sob o comando da Organização Provincial de Voluntários – OPV.
A situação de guerra favoreceu a acção dos caçadores furtivos, tanto residentes como idos das cidades e vilas, que abatiam indiscriminadamente os grandes animais, sobretudo elefantes. Logo após o “25 de Abril” tudo se agravou devido à indisciplina reinante nos homens da OPV, também eles predadores dos efectivos dos grandes animais, quer para alimentação quer para negócio da carne e marfim. Os próprios guardas e os trabalhadores do Parque em geral, afectados pela confusão reinante, caíram numa total indisciplina e deixaram de cumprir cabalmente as suas tarefas passando os dias a reivindicar condições impossíveis de satisfazer no momento que se atravessava.
A administração do Parque encontrava-se, nessa altura, desfalcada dos principais responsáveis devido ao pedido de demissão, meses antes, do próprio administrador, o veterinário Dr. Albano Cortês e pela ausência de férias em Portugal do respectivo adjunto, o fiscal de caça Luís Lopes Fernandes. O fiscal de caça Justino Matias, que ficou a substituir o adjunto, tal como o seu colega Manuel João Moedas, tiveram entretanto de ser retirados do Parque porque vinham sendo maltratados e ameaçados de morte pelos homens da OPV, justamente por tentarem opor-se às suas actividades ilegais. Ambos foram substituídos no Chitengo pelos fiscais de caça Pedro Manussos e Joaquim Rato Martins, excelentes profissionais conhecedores do Parque, mas impotentes perante tão caótica situação.
A primeira medida para acabar com toda aquela anarquia foi a desmobilização e retirada do grupo da OPV . Assim, em fins de Julho (3 meses após o “25 de Abril”), depois de uma autêntica odisseia que eu próprio vivi como enviado especial do serviços centrais para promover essa diligência, foi possível, com o apoio do comandante das tropas portugueses e dos seus homens instalados no Chitengo, desarmar e retirar os 120 homens e enviá-los para Lourenço Marques, onde haviam sido recrutados e preparados para aquela missão no Parque. Um trabalho que se tornou difícil devido ao facto da retirada do grupo não ter sido decidida nem apoiada pelos altos comandos da OPV. Uma história que está enterrada como tantas outras que ocorreram nesse período do fim da chamada “guerra colonial” e na transição até à independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975!
Imediatamente após a saída dos “voluntários”, reuni com os responsáveis e representantes dos trabalhadores do Parque baseados no Chitengo, para uma análise da situação e estudo de medidas a tomar com vista ao futuro do mesmo Parque. Foi resolvido contactar o mais breve possível os responsáveis da Frelimo sedeados algures na base da Serra da Gorongosa e na margem esquerda do rio Púnguè, com os quais ainda não tinha havido qualquer ligação. Apenas se dispunha de informações que existiam tais bases e que o comandante da região era um guerrilheiro famoso de nome Cara Alegre.
Elaborou-se um documento (mensagem) dirigido aos combatentes da Frelimo, exortando-os a defenderem o Parque e darem apoio imediato aos seus responsáveis para resolução de problemas graves que ali decorriam, tais como a caça furtiva e indisciplina entre os trabalhadores. Apesar de ter sido redigido a 4 de Agosto, somente a 11 do mesmo mês foi possível entregar tal documento ao comandante Cara Alegre, o que aconteceu através de um grupo de representantes do Parque, que o subscreveram, a saber:
- Celestino Ferreira Gonçalves, fiscal de caça-chefe
- Joaquim Pedro Rato Martins, fiscal de caça de 1ª classe
- Pedro David Ernesto Manussos, fiscal de caça de 2ª classe
- Chico Natal Alfredo Candeeiro, motorista
- Francisco Pranga, servente de 1ª classe (guarda)
- Castigo Mamunanculo, servente de 1ª classe (guarda)
O encontro com o famoso comandante da Frelimo ocorreu em Vila Paiva, sede da Circunscrição da Gorongosa (actual vila de Gorongosa) depois de contactos prévios através do comerciante Dário Santos Mosca, desta localidade, pessoa muito conceituada na região e cujas relações com os representantes da Frelimo eram cordiais. Foi a primeira vez que este comandante apareceu em público e se encontrou com as forças vivas, civis e militares, da região, um acontecimento que arrastou uma autêntica multidão de elementos das populações da vila e circunvizinhas que ali acorreram para ver esta figura mítica da luta armada, cuja popularidade ficou bem demonstrada pelas aclamações de que foi alvo à chegada e quando percorreu as ruas da vila.
Foi uma autêntica festa, toda ela patrocinada e dirigida pelo comerciante Mosca, que inclusivamente ofereceu comidas e bebidas a centenas de pessoas que encheram literalmente as suas instalações comerciais e a rua fronteira, dando largas à sua alegria cantando e aplaudindo a Frelimo e o comandante Cara Alegre.
Após o primeiro contacto com a população que se concentrara em frente do complexo comercial e industrial de Santos Mosca, o comandante Cara Alegre foi convidado para se dirigir ao quartel militar onde o comandante do batalhão português, tenente coronel Cavaco, acompanhado dos representantes das forças vivas locais e do Parque Nacional da Gorongosa, o recebeu no seu gabinete e lhe dirigiu palavras amigas, retribuídas em tom emocionado por este representante máximo da Frelimo na região da Gorongosa.
A nossa representação teve um acolhimento muito especial da parte daquele combatente, que ouviu com muita atenção a leitura que fizemos da nossa mensagem no momento da cerimónia no gabinete do comandante do batalhão português e agradeceu no final afirmando que a faria chegar ao seu chefe máximo, o presidente Samora Machel. Ali mesmo ficou combinada a sua ida ao Chitengo, dias depois, um convite que aceitou prontamente face às preocupações que lhe transmitimos sobre a situação complicada que se vivia no Parque.
Regressados ao Chitengo, no dia seguinte ao memorável encontro de Vila Paiva foi-nos entregue pelos guardas do portão de entrada no Parque uma mensagem escrita a lápis, num papel tosco, que dizia: “O responsável vindo de L. Marques deve apresentar-se no Bué Maria, amanhã de manhã, sem armas nem militares”. Esta mensagem, que não estava assinada e tinha em baixo a palavra “Frelimo” em letras gordas, foi analisada e todo o grupo que esteve na Vila acordou que seria prudente comparecermos. O mesmo não opinou o capitão da Companhia da tropa portuguesa, que nos chamou a atenção para o perigo de se tratar de uma cilada, acrescentando que em caso de sermos raptados ele nada faria pois tinha ordens superiores, face a ocorrências recentes, de não se exporem mais a situações de perigo como essa.
Não obstante a opinião do capitão português, seguimos no dia seguinte de manhã para o Bué Maria, agora com o grupo acrescido de mais dois elementos – Manuel Chimoio, motorista e Alberto Matambo, servente de 1ª classe (guarda) -, utilizando uma viatura em cuja caixa aberta nos acomodamos. No trajecto de cerca de 5 Km entre o portão de entrada do Parque e o Bué Maria, na margem esquerda do rio Púnguè, sempre com a viatura em velocidade moderada, nada aconteceu. Nem vivalma e a sensação que tínhamos é que até os animais, mesmo as aves, haviam desaparecido, tal o silêncio da mata! Chegados ao rio e depois de uma pequena pausa, o Castigo Mamunanculo, o carismático e sensato guarda do Parque, observou com grande convicção que no regresso teríamos de certo o encontro. E não se enganou!
A cerca de um quilómetro do rio e logo após uma curva, deparamos com um grupo (c








