11 September 2016

169 - RECORDANDO CAÇADORES GUIAS QUE FIZERAM HISTÓRIA



ÁLBUM DE RECORDAÇÕES
- 6 -
JOSÉ JOAQUIM SIMÕES
(SIMÕES SAFARIS)

(Republicação actualizada)

1962 – Em Nairoto, o José Simões,  exibindo um belo troféu de Cudo (Tragelaphus strepciceros).


Caçador-guia e promotor de safaris, o José Simões foi o grande dinamizador da indústria dos safaris de caça em Moçambique, iniciada em finais da década de 50, com acção preponderante no distrito de Manica e Sofala, centro do território. 
Nascido na cidade da Beira, onde seu pai era funcionário dos caminhos de ferro da antiga “Beira Railways”, viria a seguir a carreira do seu progenitor, que faleceu quando ele tinha apenas 13 anos. Ainda novo chegou a chefe de estação em Vila Machado (actual Nhamapanda), uma pequena povoação a cerca de cento e vinte quilómetros da Beira e situada no centro de uma vasta região rica em espécies selvagens. Ali a sua paixão pela caça arrastou-o para uma actividade que no início da década de 50 estava muito em moda na região: a caça profissional, que proporcionava uma vida desafogada com a venda da carne, peles e marfim. 
Surgiu nessa altura em Moçambique um brasileiro – Jorge Alves de Lima – que vinha caçar e mais tarde se tornaria num dos pioneiros da indústria de safaris em Moçambique, como concessionário da Coutada oficial nº 5, junto da margem esquerda do rio Save. Este caçador foi provavelmente o  inspirador do José Simões, com quem caçou várias vezes, transmitindo-lhe as suas experiências vividas noutros países africanos, sobretudo no Quénia. 
Depois de alguns anos de envolvimento na dupla actividade de caça para negócio de carne, peles e marfim e realização de safaris (prática comum entre a maioria dos chamados “caçadores profissionais”, embora, na época, não houvesse ainda legislação específica para esta última actividade),  o José Simões  acabaria por visitar o país modelo em África – o Kénia – onde caçou e  ficou a par dos meandros desta indústria. Dedicou-se depois com grande paixão à dinamização  do processo de criação das coutadas oficiais, que, tal como a regulamentação da actividade de caçador-guia, ficaram concluídos em Junho de 1960. 
Obteve a concessão de três das dezassete  coutadas que então foram criadas - Inhamacala (nº 6), Catulene (nº 7) e Marromeu (nº 10) - e criou a empresa “Simões Safaris”, com sede na cidade da Beira. Era também titular da licença de caçador-guia número um, emitida pelos Serviços da Fauna, que exibia com certo orgulho, embora fosse contestado pelo seu colega Alberto Araújo, que fora efectivamente o primeiro caçador a efectuar safaris em Moçambique, na antiga coutada do Sabonete, mais tarde a coutada oficial nº 1 (Ver Álbum nº 2). 
Os jornais e revistas da época acompanharam de perto esta nova actividade em Moçambique e destacaram com frequência os sucessos alcançados pela “Simões Safaris”, que  recebia consagradas figuras do mundo da caça!
Rapidamente o José Simões se tornou conhecido naquele mundo, que passou a visitar com a regularidade que os seus agentes reclamavam! Tornou-se  membro dos mais conceituados clubes de caçadores, indo aos seus congressos e às mais diversas reuniões, 
onde promovia os safaris nas suas coutadas. 
A facilidade e o à-vontade com que se exprimia, quer num fluente inglês,  com sotaque americano, quer num razoável castelhano, granjeou-lhe muitas amizades nos países  de origem da esmagadora maioria dos caçadores-turistas! Os calendários das épocas venatórias ficavam repletos de clientes,  oriundos dos Estados Unidos da América, Espanha, México, Canadá, Itália, França, Alemanha, Brasil, Suiça, Austria, Japão, Argentina e outros.
O sucesso dos safaris nas suas coutadas resultava sobretudo dos excelentes troféus que ali eram obtidos, comparados com os de outros países africanos, como o Kénia, Tanganhica, Congo, Chad, Sudão, República Centro Africana e outros, onde há muitos anos se  explorava esta indústria! Muitos desses troféus atingiram os primeiros lugares nas listas dos records mundiais de espécies africanas e encontram-se registados no livro Rowland Ward’s  Records of Big Game, em nome de famosos caçadores como  Elgin Gates, Stevenson-Hamilton, K. Painter, Lord Kylsant, W. Charter  etc.

Conheci pessoalmente o José Simões em 1961, na cidade da Beira, quando ali me desloquei ido de Cabo Delgado,  para a minha primeira visita ao Parque Nacional da Gorongosa, a convite do Dr Manuel Rodrigues da Costa, veterinário, chefe da repartição distrital de veterinária de Manica e Sofala e que na altura acumulava a administração do mesmo Parque. 
Pessoa muito afável, falava da sua actividade com grande entusiasmo, afirmando a cada passo que a caça turística era a mina de ouro de  Moçambique, por ser  uma fonte de divisas importante que convinha desenvolver e acarinhar. Passámos longas horas abordando os temas envolventes desta matéria e como era o primeiro profissional deste ramo que conhecera até ali, fiquei maravilhado com os seus conhecimentos sobre o mundo dos safaris  e do turismo subjacente, que há muito tentava conhecer! 
No auge da sua actividade, em 1962, as reservas de safaris ultrapassavam em muito a capacidade das suas coutadas e isso levou o José Simões a procurar expandir a sua acção a outras regiões de Moçambique. 
Entusiasmado com as descrições que lhe fiz sobre o  potencial faunístico das regiões do norte, acabaria por obter dos Serviços de Fauna Bravia autorização para que eu o acompanhasse num estudo das áreas de Nairoto, Negomano e Mecula, atravessadas pelo rio Lugenda e limitadas a norte pelo rio Rovuma, fronteira com a Tanganhica (actual Tanzania). 
Em Março daquele ano, tal estudo foi efectuado, embora sumariamente, limitando-se a um breve reconhecimento aéreo das referidas áreas e a pequenas incursões terrestres ao longo da margem direita do rio Lugenda. A quantidade e variedade de espécies avistadas e  os claros vestígios de muitas mais que as matas encobriam, deixaram o José Simões bastante entusiasmado e nesse mesmo ano viria a ser autorizado a realizar  safaris de caça na região.


1962 - O José Simões, com o autor, junto do avião na pista de Nairoto, 
aquando dos trabalhos de reconhecimento da fauna no norte de Moçambique.

As características dessa região, que em grande parte era coberta de matas de bambú, impenetráveis às viaturas, foi a principal causa de insucesso do primeiro safari ali realizado. Era necessário um grande investimento na abertura de picadas e construção de acampamentos e isso não foi feito.
O José Simões concentrou-se de novo nas suas três coutadas de Manica e Sofala e entretanto a sua fama já havia chegado às mais altas esferas da nação, devido à sua acção, dita de patriótica, no estrangeiro.
Um episódio televisivo, nos Estados Unidos, em que um amigo do Simões – Willber May -, dono de uma cadeia de televisão, colocou frente a frente, num dos seus programas, este caçador e o presidente da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), Dr. Eduardo Mondlane, que na altura desenvolvia uma cerrada campanha contra Portugal, devido à colonização do território, colocou  o José Simões  numa posição de autêntico herói  no seio do governo português! Ele tinha enfrentado Eduardo Mondlane  com uma dureza sem precedentes, desmentindo-o sobre as acusações que fazia a Portugal e recusou-se, inclusivamente, a estender-lhe a mão! Isto num programa televisivo visto por milhões de pessoas nos Estados Unidos da América.
Tal episódio fora gravado na embaixada de Portugal em Washington e rapidamente chegou ao governo de Lisboa. Não tardou que o Simões fosse chamado à presença de Salazar, que lhe dispensou 
rasgados elogios, considerando-o um dos melhores embaixadores da política colonial portuguesa no estrangeiro, entretanto muito abalada devido à acção dos movimentos de libertação dos respectivos territórios! 
A presença de altas figuras da finança, da política e da cultura, no interior de Moçambique, conduzidas descontraidamente durante as excursões cinegéticas, eram também consideradas pelo governo como excelente veículo de propaganda, através dessas figuras, que no regresso aos seus países poderiam testemunhar que a vida no território era de perfeita paz e harmonia entre as populações. Nenhuma outra actividade, como a do Simões, servia melhor este objectivo e ele próprio fazia questão de salientar, nas suas palestras no estrangeiro, que a acção dos tais movimentos era nula no território. 
Nasceu assim uma nova etapa na vida do José Simões, cada vez mais conhecido além fronteiras. Ele soube aproveitar bem a simpatia que granjeou do chefe do governo português, obtendo empréstimos bancários consideráveis para melhorar a sua organização. 
Em 1963 e 1964, o  presidente da república portuguesa enviaria convidados seus – os marqueses de Villaverde (filha e genro do generalíssimo Franco, de Espanha)  e o casal Aznar -, para caçarem na “Simões Safaris”. Ainda em 1964,  mais um convidado da presidência – o capitão Munhõs Grandes, filho do ministro da defesa de Espanha -  viria igualmente a efectuar um  safari  nas coutadas concessionadas ao José Simões. O sucesso destes safaris foi simplesmente retumbante  e arrastou  muitas dezenas de caçadores da alta finança espanhola (e não só) para as coutadas de Manica e Sofala, com destaque para a organização do Simões.
Estes safaris oficiais decorreram  já  com a minha presença no distrito de Manica e Sofala e aproximaram-me do José Simões e de toda a sua organização, assim como de outros caçadores-guias que vieram a participar nas caçadas, uma vez que fui designado como supervisor dos mesmos safaris, acompanhando-os de princípio ao fim e  tomando, por vezes, o lugar de caçador-guia, nomeadamente em algumas caçadas individuais do Marquês e  praticamente todas as  do capitão Munhõs Grandes. 
Tive então a ocasião de conhecer de perto este experimentado caçador. Um homem de compleição física a pender para o atarracado, dotado de qualidades excepcionais como pessoa e como profissional. Tinha um excelente relacionamento com as populações rurais, valendo-lhe por isso o respeito e admiração das mesmas. Dava-lhes assistência nas doenças mais simples e nos casos mais complicados as suas viaturas estavam sempre à disposição para levar as pessoas aos hospitais. Um caso particular foi muito falado, na altura, e passou-se no Catulene, onde se situava o acampamento central da coutada numero sete: o régulo local, já de idade avançada, sofria de doença nos olhos que o privavam de ver há mais de dez anos; o Simões levou-o para a Beira e custeou uma operação que lhe recuperou a visão! O velho régulo nem queria acreditar e espalhou aos quatro ventos este “milagre”, que elevou ainda mais alto o prestígio deste caçador. 
A caça aos grandes felinos – leões e leopardos –, por norma muito difícil por se tratar de animais de fácil simulação nas matas e que fora dos parques  raramente se vêm durante o dia, era o seu forte.  Conhecedor profundo dos seus hábitos, conseguia excelentes resultados e os seus clientes raramente  deixavam de abater estes apreciáveis espécimes, invariavelmente ao cair da tarde ou pela madrugada já com o sol a despontar!


1963 - Na coutada 6 (Inhamacala)  o Marques de Villaverde (direita) e o Simões. 
(Foto do autor)


1964 -  Em Inhamacala com o autor no dia em que este recebeu uma condecoração do Governo espanhol resultante da sua acção de supervisão dos safaris dos Marqueses de Villaverde

Em 1964, quando a sua organização deveria estar mais forte devido às excelentes épocas anteriores,  ao seu prestígio cada vez mais acentuado no estrangeiro e   à excelente carteira de turistas-caçadores que preenchiam praticamente todo o calendário desse ano, a “Simões Safaris” sofreu um colapso financeiro, que aliás se vinha acentuando nos últimos dois anos, não obstante os empréstimos contraídos na banca, facilitados pelo governo de Lisboa.
 O José Simões, deslumbrado provavelmente com os sucessos e a fama alcançados,  gastava milhões nas prolongadas viagens ao estrangeiro, sempre acompanhado, desprezando um pouco o controle da empresa, cuja administração não teve colaboradores à altura. As viaturas e os equipamentos atingiram o desgaste quase total e não foram adquiridas outras novas. Os próprios caçadores-guias seus empregados, atingidos pela crise, começaram a debandar para outros promotores de safaris ou tornaram-se empresários individuais. 
O banco credor – Banco Nacional Ultramarino – aproveitando-se da situação, absorveu a  sua organização e criou uma mega empresa – a Safrique (Sociedade de Safaris de Moçambique) -, onde congregou, para além das três coutadas do Simões (nºs 6, 7 e 10),  mais as concessionadas a Alberto Araujo (nº 1), Agência de Turismo da Beira (nº 9), Vergílio Garcia (nº 12), Francisco Salzone (nº14) e Armindo Vieira (nº 15). Obteve ainda a concessão da coutada nº 13. Um total de 9 coutadas  (mais de metade das existentes no território), todas no distrito de Manica e Sofala. 
Em 1965 a “Safrique” arrancou  com uma dinâmica nova: excelentes acampamentos; viaturas e máquinas novas; material de campanha do melhor; abriu picadas por todo o lado e dispunha de uma equipe de caçadores-guias experimentados para garantir safaris ao melhor nível de África.
O José Simões, tal como os outros concessionários das coutadas, com excepção apenas de Francisco Salzone que preferiu continuar como independente em zonas livres, foram integrados na “Safrique” com cotas insignificantes, exercendo funções  de “inspectores”, viradas sobretudo para  a promoção e gestão dos safaris. 

Contudo, o José Simões, desmotivado pelas funções que lhe foram atribuídas e também pela falta dos milhões com que estava habituado na sua anterior empresa, viria a separar-se da “Safrique” pouco mais de um ano depois da sua criação. Juntou-se a um grupo de colegas independentes, entre eles  Victor Cabral, Francisco Salzone, Moreno y Moreno, Mário Damião, Amílcar Jorge, António Fajardo e outros,  obtendo zonas de caça periféricas às coutadas, que se designavam de “zonas livres”, onde efectuavam safaris de nível equiparado já que os núcleos de fauna eram muito idênticos. Uma actividade nem sempre pacífica, dados os conflitos permanentes entre estes promotores e a própria “Safrique”, com acusações mútuas de invasão dos respectivos territórios. 
Paralelamente, o José Simões criou uma nova organização - a empresa “Maningue”-,  virada para a captura de aves e peixes exóticos, cujos resultados atingiram níveis excelentes com a exportação de grandes quantidades de espécimes muito apreciadas na europa. 


1964 – Simões com a Marquesa de Vilaverde (esqª) e Loli Aznar após uma caçada brilhante na coutada 7 (Catulene)


1964 – Simões e Celestino  com os ilustres convidados espanhois em Catulene num dia bem sucedido


A viragem política em Portugal em Abril de 1974, que apressou a independência das colónias portuguesas em África, atingiu todas as organizações de safaris em Moçambique, entretanto já afectadas pela acção dos guerrilheiros da “Frelimo”, que vinham atacando e incendiando diversos acampamentos no distrito de Manica e Sofala, nos últimos quatro anos. 
Começou então a  debandada dos caçadores profissionais e promotores de safaris independentes de Moçambique, para outros países africanos, tendo o Simões, juntamente com Victor Cabral e outros, optado por Angola, onde as condições também descambariam e os obrigou a mudar-se para o Sudão. 
O José Simões terá conseguido bons parceiros, seus antigos clientes em Moçambique e construído uma empresa sólida e de sucesso naquele país. 
Alguns anos de glória e de avultados rendimentos conseguiu  ainda este intrépido caçador, mas também as perturbações políticas naquele país acabariam por atingir as actividades de caça. Mais uma vez o Simões via gorado o seu esforço e diluídos os sonhos que desde muito novo acalentou!
Viveu, sem dúvida, uma vida plena de aventuras e emoções fortes! 
Uma doença incurável, mais forte que todos os perigos que enfrentou durante a sua  vida de caçador, vitimou este simpático beirense, com cerca de setenta anos, em fins da década de noventa.  O José Joaquim Simões - o“Simões Safaris”, como era conhecido no mundo da caça - , era muito estimado  na cidade da Beira e foi, sem dúvida, o caçador moçambicano mais conhecido em todo o mundo! 
Desapareceu assim uma figura mítica, das que mais honraram uma profissão considerada a mais emotiva e perigosa em África – caçador! 
Dois dos seus três filhos, o Manuel e o Durival, seguiram entretanto a carreira do pai, tornando-se caçadores guias e têm desenvolvido esta actividade em vários países africanos, entre eles Moçambique onde a partir de 1994 foram retomadas  as actividades cinegéticas. 
 
Marrabenta, Janeiro de 2002 


Celestino Gonçalves 

(Fiscal de caça-chefe de Moçambique, reformado)

FONTES: 
- Dados genéricos e impressões: do autor; 
- Complementares: Victor Cabral (ex-colega do Simões e actualmente a viver no México) e José Augusto Serra Campos (promotor de safaris e actual concessionário da coutada oficial nº 6 
em Moçambique).