25 July 2007

24 - RECORDANDO OS CAÇADORES GUIAS DA ÉPOCA DE OURO DOS SAFARIS EM MOÇAMBIQUE


HARRY MANNERS
Caçador Guia e um dos mais famosos caçadores de elefantes de Moçambique

(10)

HARRY MANNERS terá sido o melhor caçador de elefantes de Moçambique de todos os tempos! Muitos observadores assim o afirmaram, mas eu prefiro classificá-lo como um dos melhores. Aliás, é assim que penso em relação a todos os outros dos chamados “grandes” que conheci pessoalmente ou de quem ouvi falar e, tal como o Harry Manners, foram extraordinários caçadores não só de elefantes como de toda a chamada caça grossa. Este princípio de não alinhar na definição de “melhor caçador” assenta no facto de se tratar de um juízo de valor com elevado risco de erro, já que tal designação por norma surge de fama propagada a partir do próprio, de amigos, ou de pessoas que ouvem as histórias por vezes mirabolantes das caçadas quase sempre associadas a actos de valentia ou a grande número de animais abatidos pelo caçador, com destaque para elefantes, leões e búfalos. Por outro lado, também coloco reticências em certos livros, nomeadamente os de cariz autobiográfico onde os autores se colocam como arautos da modalidade, menosprezando ou simplesmente esquecendo os outros que fizeram o mesmo ou melhor que eles.

Houve sem dúvida em África caçadores famosos, conhecidos por “White Hunters”, muitos deles biografados em livros de memórias. Nomes como Frederick Selous, John Hunter, Allan Black, Bill Judd, Fritz Schindelar, Leslie Simpson e Karamojo Bell, são referências lendárias que actuaram em finais do século dezanove e princípio do século vinte nos territórios sob domínio inglês e alemão e cujas histórias continuam a fascinar qualquer pessoa que gosta da caça grossa africana. Em Moçambique houve também nomes que se notabilizaram para além do Harry Manners, como o famoso John Taylor (Pondoro), Gustave Guex, Wally Johonson, Werner Alvensleben, Pierre Maia, Manuel Nunes, José Afonso Ruiz, Virgílio Garcia, Daniel Roxo, etc.

A actividade de caça em África, como profissão, não era propriamente um acto de desporto como muitos pretendiam fazer crer. Era sim um trabalho muito duro e arriscado que não envolvia qualquer tipo de competição. O caçador actuava normalmente longe das vistas de outros concorrentes e a sua equipa limitava-se ao pessoal auxiliar (pisteiros e carregadores), pelo que toda a sua actividade raramente era conhecida por estranhos. Em Moçambique – e julgo que no resto do continente africano - jamais algum caçador, profissional ou amador, foi avaliado através de parâmetros ou escalas de valor apropriados. Quando muito – e isso era também uma tarefa nossa, da fiscalização - ajuizava-se o valor de cada um em função dos resultados das suas campanhas de caça, do respeito que tinham pelas leis da caça, pela forma como colaboravam na luta contra a caça furtiva e pelo apoio que davam às populações nativas defendendo-as dos animais perigosos ou daninhos quando invadiam as suas culturas alimentares ou atacavam as pessoas.

O Harry Manners foi, sem dúvida, um dos caçadores mais conhecidos em Moçambique, durante mais de três décadas (1940/1975) e ninguém duvida que foi dos mais consagrados que actuou neste país. Foi ele quem abateu, na década de 40, o elefante com as maiores presas registadas no território, com cerca de 80 Kg cada e que são as terceiras maiores a nível mundial. A história dessas célebres presas é muito curiosa e teve ao longo de vários anos algumas versões contraditórias depois que foram localizadas na cidade da Beira em 1964. Não havia, na altura, qualquer referência sobre a sua origem, mas porque se tratava de troféus de grandes proporções que excediam todos os que eram conhecidos, os Serviços da Fauna Bravia, através do Dr. Armando Rosinha, então chefe da Repartição de Veterinária de Sofala (Beira), evitaram que o seu destino fosse a exportação para Hong Kong, o caminho de todo o marfim de Moçambique. Do armazém do comerciante Serra Campos, que era fiel depositário das presas por fazerem parte de um processo de falência que corria no tribunal contra um outro comerciante (indiano) da Beira, este valioso espólio foi transferido para o Museu da Beira a cargo da Câmara Municipal. Nesse mesmo ano (1964) foram levadas à Exposição Mundial de Caça em Itália onde foram muito admiradas no pavilhão de Moçambique. Regressadas desta exposição o então director do Parque Nacional da Gorongosa, Dr. Silva e Costa, que fora o responsável da representação moçambicana, obteve a permissão de tais presas ficarem no recém criado Museu do mesmo Parque e ali permaneceram até 1977, altura em que o arquitecto responsável pela decoração do Palácio da Presidência da República (Moçambique era já independente desde 1975) procurou junto dos Serviços da Fauna (curiosamente chefiados na altura pelo Dr. Armando Rosinha) um par de presas de elefante com dimensões e beleza significativas para serem colocadas em lugar de destaque na residência oficial do presidente Samora Machel. Pela segunda vez o Dr. Rosinha foi protagonista no destino das presas mandando transferi-las da Gorongosa para Maputo. Chegadas ao Palácio o arquitecto julgou-as incompatíveis com a decoração pretendida devido ao seu grande tamanho e, de novo, recorreu aos Serviços da Fauna para uma outra alternativa. Solucionado o problema com um par de presas mais adequadas e que já existiam nos Serviços em Maputo, mais uma vez (a terceira) o Dr. Rosinha interveio no destino das grandes presas sugerindo ao presidente Samora Machel que as mesmas fossem entregues ao Museu de História Natural.

A controvérsia sobre a origem destas presas manteve-se até finais dos anos 90, altura em que, pela última vez, o Harry Manners visitou Maputo e confirmou, junto do director do Museu, Dr. Augusto Cabral, que aquelas eram as pontas do elefante que abatera no norte de Moçambique na década de 40 e depois vendera a um comerciante da Beira. Na altura o autor do abate do grande elefante exibiu uma fotografia tirada junto das presas pouco antes da sua venda, ajudando assim à sua identificação e ao desvanecimento das dúvidas que ainda pudessem existir.

Quando visito o Museu de História Natural em Maputo e admiro aqueles dois preciosos troféus, sinto que também eu participei no seu destino pois na altura em que os mesmos foram levados à exposição de Itália, em 1964, encontrava-me a coadjuvar o director do Parque Nacional da Gorongosa e participei na organização e envio dos troféus representativos de Moçambique. Tive a feliz ideia de fazer um seguro especial para as presas de elefante e isso valeu a sua protecção por parte da seguradora internacional, à chegada, durante a permanência na exposição e no reenvio a Moçambique. O Dr. Silva e Costa louvou esta minha iniciativa quando no regresso de Itália me disse que não fora a protecção dada pela seguradora e provavelmente as presas teriam sido roubadas, tal a cobiça de que foram alvo na exposição!



O Harry Manners com o seu amigo e também caçador profissional Werner Alvensleben, junto do célebre elefante abatido em Moçambique na década de 40 e cujas presas, de grandes proporções, se encontram no Museu de História Natural de Moçambique, em Maputo.

O célebre par de presas de elefante antes da sua transferência do Museu do Parque Nacional da Gorongosa em 1977, para o seu primeiro destino depois da independência de Moçambique

Em finais dos anos 90, pouco antes do seu falecimento na África do Sul, o Harry Manners tirou esta foto em Maputo ao lado do caçador guia Sérgio Veiga. A foto que ele exibe mostra as famosas presas pouco antes de as ter vendido a um comerciante da Beira, nos anos 40.

O destino final dos preciosos troféus - o Museu de História Natural de Moçambique.
O director do Museu, Dr. Augusto Cabral (à esquerda com o autor nesta foto tirada em Março de 2005), projectou e executou este belo trabalho de enquadramento na parede frontal de acesso ao primeiro andar do
Museu.

* * *


NOTA: Texto e fotos extraídos do Álbum 14 publicado em Setembro de 2005 na Website www.geocities.com/Vila_Luisa, onde constam mais elementos biográficos sobre o H. Manners. Pede ser visto AQUI:

Marrabenta, Julho de 2007

Celestino Gonçalves


16 July 2007

23 - RECORDANDO OS CAÇADORES GUIAS DA ÉPOCA DE OURO DOS SAFARIS EM MOÇAMBIQUE





AUGUSTO LUIS DOS SANTOS
(Caçador Guia)

e
MARIA ISABEL SANTOS
(Caçadora Desportista)



Na foto o casal Santos, em 1968, junto de um búfalo abatido pela Maria Isabel na região do Guro



1 – UMA ACTIVIDADE ALICIANTE


O continente africano - o berço da humanidade - sempre foi a região do globo mais fértil em animais selvagens, muitos deles cobiçados pelo valor dos seus troféus, das suas peles e da sua carne.
Com a colonização dos territórios de África por parte dos europeus, sobretudo a partir do século dezanove quando surgiram as primeiras armas adequadas ao abate dos grandes animais, apareceram os chamados aventureiros que se dedicaram exclusivamente à caça, atraídos nomeadamente pelo valor do marfim de elefante, na época uma espécie muito abundante praticamente em todo o continente.
Ficaram na história nomes de caçadores famosos que foram motivo de inspiração de sucessivas gerações de praticantes desta arrojada e apaixonante profissão. Eles eram conhecidos por “White Hunters” (caçadores brancos), designação que chegou aos nossos dias mas que acabaria por cair em desuso devido às mudanças políticas entretanto surgidas com a independência dos países africanos. A palavra “White” foi abolida passando os caçadores a ser genericamente designados por “Professional Hunters”, não obstante serem ainda, na actualidade, de raça branca a esmagadora maioria dos caçadores guias que conduzem os safaris de caça em África. Uma situação bem enganadora da real capacidade dos negros como caçadores, mas justificada pelo facto de se tratar de uma profissão tradicionalmente exercida por brancos e que ainda hoje conserva o mito deixado pelos tais famosos “White Hunters”, à volta do qual os clientes se inspiram e encontram a confiança para enfrentar os grandes e perigosos animais da selva africana.
Esta realidade, aliás, tem sido aceite com alguma naturalidade pelos países africanos onde a indústria do turismo cinegético continua a ser praticada, destacando-se de entre eles a Tanzania, onde várias organizações se dedicam aos safaris de caça. Muito recentemente, uma das maiores empresas ali radicadas – a Tanganyika Wildlife Safari – divulgou no seu panfleto anual de promoção de safaris os nomes e fotografias dos seus caçadores guias, em número de vinte, e, todos eles, eram brancos, quase todos famosos no ranking mundial da caça em África, destacando-se o conhecido português nascido em Moçambique, Luís Pedro de Sá e Mello (1), designado pelo International Safari Clube, na época venatória de 2003, um dos melhores “Professional Hunters” deste continente.
Na primeira metade do século vinte muitos desses aventureiros afluíram ao território de Moçambique onde encontraram condições extraordinárias para exercerem a caça ao elefante, uma actividade que até era facilitada pelas próprias autoridades coloniais pelo facto destes animais serem considerados daninhos, havendo inclusivamente leis que estabeleciam prémios pelo seu abate em determinadas zonas do território.
Nas décadas de quarenta e cinquenta, esta actividade estendia-se praticamente a todo o território da colónia, contando-se por alguns milhares as licenças que nos últimos anos deste período eram emitidas pelos serviços do Estado que controlavam a fauna bravia, no caso Comissões Provincial e Distritais de Caça.
Atraídos pelo lucro fácil e, também, em muitos casos, movidos pelo espírito de aventura, muitos jovens abandonaram por essa altura as suas carreiras para se dedicarem a esta profissão. Alguns deles, quando a chamada caça profissional foi abolida e foi criada a caça turística, em 1960, acabaram por se tornar caçadores-guias, conduzindo safaris de caça nas coutadas oficiais então criadas. Foi uma alternativa que abrangeu apenas um limitado número de caçadores, tanto pela reduzida capacidade das novas empresas operadoras de safaris, mas também pelo rigor do estatuto desta profissão (Regulamento do Caçador-Guia) que continha um conjunto de exigências, sobretudo do ponto de vista técnico e físico, assim como falar línguas estrangeiras e ter conhecimentos de enfermagem e de pronto socorro.



2 – O PERCURSO DO LUÍS SANTOS


Nascido na cidade da Beira a 6 de Outubro de 1932, o LUIS SANTOS passou a sua juventude na propriedade agrícola que seus pais possuíam em pleno coração do planalto de Chimoio, província de Manica, centro/oeste de Moçambique, uma fazenda de grandes dimensões circundada de florestas e savanas ricas em animais selvagens de pequeno, médio e grande porte, com destaque para os antílopes (elandes, cudos, palapalas e changos), para os dois grandes felinos (leões e leopardos) e outra fauna menor como facoceros, cabritos, lebres, hienas, babuínos, macacos, perdizes, etc,. Não muito longe, nas margens do rio Púnguè, para além destas espécies abundavam ainda outras comuns da região centro de Moçambique, como elefantes, búfalos, zebras, impalas, bois-cavalo, inhacosos, inhalas e, até, rinocerontes. O próprio rio Púnguè era fértil em hipopótamos e crocodilos.
Dividindo o tempo nas lides agrícolas com o pai e nos estudos no colégio de Nª Srª dos Anjos, na Beira, onde fez os estudos primários e secundários, ele aproveitava todos os momentos livres para caçar, tendo-se iniciado nestas lides muito jovem ainda. Começou pelos pequenos animais (galinhas, lebres, pombos verdes, rolas, perdizes, cabritos, etc,) que facilmente se encontravam a escassas centenas de metros da sua casa e à medida que avançava na idade e podia utilizar as armas mais potentes que faziam parte do armeiro do pai foi-se aventurando em incursões venatórias pelas áreas limítrofes e progressivamente foi abatendo exemplares de praticamente todas as espécies de caça grossa, à excepção do rinoceronte.
Foi seu mestre e companheiro inseparável um dos trabalhadores da fazenda, de nome Jambo, um negro que lhe ensinou não só as artes de caça como os segredos de sobrevivência na selva face às privações ocasionais como a fome e a sede e até como recorrer a certas raízes e folhas de plantas para tratamentos de emergência em casos de indisposições repentinas, febres, ferimentos e mordeduras de cobras. Ao longo da sua carreira o Jambo acompanhou-o sempre como pisteiro, uma das principais tarefas de que depende o sucesso das caçadas.

Quando atingiu os 18 anos, o Luís Santos tirou a sua primeira licença de caça de 1ª classe, o “passaporte” que lhe permitiu conhecer novos horizontes. A partir daí todo o tempo livre durante o período venatório era passado na caça em áreas como Marromeu, Chemba, Sena, Dombe, Chibabava e outras regiões de Manica e Sofala compreendidas entre os rios Save e Zambeze.
Entretanto, a carreira de topógrafo que seguiu após ter terminado o ensino secundário e que vinha desenvolvendo na Força Aérea (Base nº 10 da Beira), com passagens anteriores pela Brigada de Fomento e Povoamento do Revuè e pelo Colonato do Sussundenga, tornava-se cada vez mais penosa e monótona à medida que as suas experiências de caça aumentavam. Aos 25 anos deixou para trás essa carreira e tornou-se caçador profissional, dedicando-se, numa primeira fase (1957/1958) à caça de crocodilos no rio Zambeze e depois à chamada caça grossa que na altura proporcionava bons rendimentos com a venda da carne, peles e marfim.
Para além dos seus vastos conhecimentos da vida selvagem e de possuir grande experiência como caçador de espécies como leões (abateu o seu primeiro aos 15 anos), leopardos, elefantes, búfalos, hipopótamos, crocodilos e toda a espécie de antílopes, o Luís Santos reunia outras qualidades que tornavam o seu currículo invejável e dos mais ajustados às condições exigidas para caçador guia. Falava duas línguas estrangeiras das mais utilizadas nesta profissão (inglês e espanhol), dominava as línguas locais chissena, chindau, chinyungue e chiraparapa e possuía prática de enfermagem e de primeiros socorros com cursos tirados na Cruz Vermelha, onde trabalhou como voluntário.
Entusiasmado com os sucessos obtidos pelos seus colegas durante os primeiros dois anos de safaris e também pela motivação que lhe foi incutida pelo seu amigo de infância e colega de caça, de nome Janak, filho de gregos também agricultores radicados em Maforga, perto de Vila Pery (actual Chimoio) e um dos primeiros caçadores-guias de Moçambique que iniciaram os safaris nas coutadas oficiais criadas em 1960, o Luís acabou por ingressar, em 1963, na organização Simões Safaris (2), na altura concessionária de três das melhores coutadas da província de Manica e Sofala (nºs 6, 7 e 10).



O Luís Santos com os seus pisteiros junto de um elefante abatido na coutada 1, em 1964.



O Luís posando junto de presas de elefantes abatidos por clientes que ele e outro colega conduziram num safari em Kanga N'Thole, em 1964



Junto de um belo exemplar de Kudu


A Isabel com o produto de uma caçada bem sucedida


NOTA: Texto e fotos extraídos da biografia que publiquei em Outubro de 2004 no Álbum de Recordações do meu site http://www.geocities.com/Vila_Luisa. Pode ser visto directamente e na íntegra AQUI:

Marrabenta, Julho de 2007

Celestino Gonçalves

12 July 2007

22 - RECORDANDO OS CAÇADORES GUIAS DA ÉPOCA DE OURO DOS SAFARIS DE CAÇA EM MOÇAMBIQUE


ADELINO SERRAS PIRES

(Caçador, industrial de turismo e promotor de Safaris)
Aos 75 anos, um semblante marcado por muitas desilusões!


Adelino Serras Pires foi dos caçadores mais polémicos que conheci em Moçambique!
Senhor de uma personalidade invulgar, o seu relacionamento com as pessoas funcionava em função dos pontos de vista que cada um defendia. Ele era ( e ainda é), um homem frontal e cheio de convicções. Exigia de si próprio e dos seus subordinados grande disciplina e rigor no trabalho, criticando sempre aqueles que não cumpriam estes parâmetros. Discordar dos seus pontos de vista era, à partida, um desafio ao desentendimento e isso afastou muita gente do seu caminho, incluindo alguns colegas de profissão.
Também não era fácil o seu relacionamento com as autoridades coloniais, que criticava com frequência a propósito de abusos de poder, favorecimentos e outras injustiças sociais. Isso causava-lhe, como se calcula, muitos dissabores.

Tornou-se muito conhecido não só no mundo da caça como no meio comercial e turístico da região centro de Moçambique. Esteve ligado, entre outras actividades, à empresa familiar que se dedicava ao comércio e agricultura nas regiões de Tete e Guro; era sócio de uma Agência de Turismo na cidade da Beira, que foi uma das pioneiras da indústria do turismo cinegético em Moçambique como concessionária de uma coutada oficial e tinha também a concessão hoteleira do Parque Nacional da Gorongosa. Em meados da década de 60 atingiu o seu ponto alto na indústria dos safaris de caça fazendo parte da direcção técnica e da própria administração da Sociedade de Safaris de Moçambique (SAFRIQUE), cargo que exerceu até fins de 1973, altura em que esta empresa decidiu encerrar as suas coutadas devido à acção das guerrilhas. Em 1974 dirigiu os safaris da Moçambique Safarilândia, outra conceituada empresa do turismo cinegético em Moçambique que tinha a concessão da Coutada oficial nº 5 e do Parque Nacional do Zinave, junto das margens do rio Save.

Ele lutou denodadamente pela reactivação das coutadas de Manica e Sofala, após o 25 de Abril de 1974, conseguindo acordos com os comandantes locais da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), mas a política imposta pelos novos governantes relativamente à caça não permitiram continuar os safaris em Moçambique.

Conheci este homem no início da época de caça de 1963, quando fui designado para supervisionar o safari oficial dos Marqueses de Villaverde, de Espanha, que foram a Moçambique como convidados do Presidente da República Portuguesa. Este safari decorreu nas Coutadas de Manica e Sofala e teve início na Coutada 9 que estava concessionada precisamente à Agência de Turismo da Beira, de que o Adelino era sócio gerente. Esta Coutada situa-se na região do Guro, a cerca de 450 quilómetros da Beira, onde a família Serras Pires possuía uma quinta agrícola e lojas comerciais.

O Adelino e o José Simões (1) foram os organizadores do safari e guias principais dos quatro elementos da comitiva dos Marqueses, secundados por outros caçadores guias, nomeadamente Carlos Costa Neves, Luís Santos, Mariano Ferreira, Francisco Coimbra e Victor Cabral. O safari foi um sucesso e teve cobertura jornalística especial, sendo por isso muito divulgado no estrangeiro, sobretudo em Espanha.


Os Marqueses de Villaverde e seus acompanhantes (o financeiro Eduardo Aznar e esposa Loli ), voltaram no ano seguinte para novo safari. O Adelino foi novamente um dos guias principais, repetindo-se o sucesso do ano anterior. Fomos de novo companheiros nesta missão e entre nós ficou uma amizade bem sólida!

O sucesso destes safaris, aliado a outros igualmente bem sucedidos noutras coutadas de Manica e Sofala, Inhambane e Gaza, em que participaram individualidades da alta finança, escritores, artistas de cinema e outros famosos coleccionadores de troféus, foi rapidamente conhecido praticamente em todo o mundo. Moçambique passou, em consequência disso, a ser procurado por muitos caçadores turistas, nomeadamente de Espanha e dos Estados Unidos da América. A partir daí os calendários dos promotores de safaris passaram a estar preenchidos, com reservas de um e mais anos de antecedência!




O Adelino (direita), com o astronauto americano Stuart Roosa, comandante da Apollo 14, junto de uma palapala abatida na coutada 6, em 1971

O Adelino (direita) com o astronauta americano Charles Duke Jr., da Apollo 16, numa foto recente na sua casa em Pretória. Este famoso personagem foi um dos 12 homens que pisou a Lua e também ele efectuou um safari de caça com o Adelino, em 1973, em Moçambique.

* * *

NOTA - O texto e as duas primeiras fotos acima constam da primeira parte da pequena biografia do Adelino Serras Pires que publiquei em Outubro de 2003, no Álbum de Recordações do meu site www.geocities.com/Vila_Luisa/. Pode ser vista AQUI: A terceira foto foi publicada por António Pina, em 1 do corrente mês, na beira@groups.msn.com , com a notícia (e mais outra foto) da visita do casal Duke ao casal Serras Pires, em Pretória, em finais de Junho último. VER AQUI:

Marrabenta, Julho de 2007

Celestino Gonçalves

09 July 2007

21 - LIVROS SOBRE FAUNA BRAVIA, CAÇA E CAÇADORES DE MOÇAMBIQUE

(6)
Título

SEM ARMAS NO MEIO DAS FERAS
- A VIDA NA SELVA -

Autor: Felix Bermudes

Editora: Livraria Bertrand - Lisboa
Ano: 1959

O Autor
1 - SOBRE O AUTOR
As gerações dos dois primeiros quarteis do século passado, particularmante as mais atentas ao desporto, conheceram bem este famoso poeta, prosador, comediógrafo, desportista e teósofo, autor de várias obras com destaque para a poesia, a prosa e teatro (escreveu e adaptou 105 peças de teatro).

Mas foi como desportista que Félix Bermudes mais se notabilisou, praticando várias modalidades como hipismo, futebol, remo, ciclismo, ginástica, atletismo, esgrima, ténis, alpinismo e tiro. Foi campeão nacional, por várias vezes, em algumas destas modalidades.

Foi fundador do Sport Lisboa e Benfica, de cuja primeira equipa de futebol foi jogador e capitão. Mais tarde seria, por muitos anos, presidente da direcção deste que é o maior clube português, cargo onde granjeou enorme popularidade.

Efectuou duas viagens a Moçambique, em 1956 e 1957, tendo nessas duas ocasiões permanecido vários dias na Gorongosa, na altura ainda com o estatuto de Reserva de Caça. Este lugar fascinou-o de tal maneira que sobre ele escreveu este precioso livro, um autêntico hino ao famoso santuário de fauna bravia considerado naquela época o melhor de África. As narrativas dessas excursões e as observações ali contidas, constituem um dos melhores documentos elaborados durante a época colonial sobre o Parque Nacional da Gorongosa e que contribui, na actualidade e no futuro, para se conhecer a sua história e naturalmente para se elaborarem e concretizarem projectos de reabilitação que conduzam ao equilíbrio eco-biológico dos ecossistemas ricos que albergavam e sustentavam uma fantástica fauna que foi dizimada devido às guerras que grassaram no país de 1964 a 1992.

Exemplos flagrantes dos importantes dados históricos focados no livro são os respeitantes às grandes manadas de animais que povoavam as savanas e planícies (o autor teve o privilégio de observar uma das maiores, se não a maior, manadas de búfalos de África, com cerca de 5.000 exemplares); fotografou milhares de hipopótamos no rio e lago Urema; presenciou a ocupação do acampamento do Sungué por grupos de leões e fotografou-os dentro, em cima e ao lado do edifício que fora o restaurante (seis deles sobre o telhado).


Ali começava o mar de búfalos...
Hipopótamos que fazem sala de estar...


Seis leões em cima do telhado...


2 - SOBRE O LIVRO

Este pequeno livro, de apenas 91 páginas, constitui, como acima se disse, um valioso documento histórico sobre o Parque Nacional da Gorongosa. Não resistimos em reproduzir o capítulo "O Solar dos Leões", para recordar aquele maravilhoso espectáculo tal como foi visto por este insigne escritor:

"A mais elementar das lógicas parecia aconselhar, na organização de uma Reserva de animais selvagens, que todos os serviços do acampamento fossem instalados no centro do território. Demonstrou, porém, a experiência que a lógica, às vezes, não passa duma batata. O movimento diário das funções administrativas e hoteleiras, agravado com o turismo, acabou por tornar tão familiares as próprias feras, que ameaçavam transformá-las em bichos de capoeira, capazes de vir comer à mão. Era preciso que os animais se deixassem ver a boa distância, mas seria incoerente e decepcionante ter de lhes pedir licença para passar.
Reconheceu-se, portanto, que se tornava imperativo transferir o acampamento para a entrada do território mais próxima da cidade da Beira. Com actividade e zelo, aproveitando os ensinamentos da experiência, foi construído o acampamento actual e abandonado o primeiro. Logo uma família de sete leões tomou posse de todos os recintos, incluindo o terraço do restaurante de que fizeram solário. Aprenderam, não se sabe como, a servir-se da escada exterior. em caracol. Arvoraram o interior das casas em abrigos, alcovas e maternidades e passaram a organizar uma vida citadina. O mercado é ali à beirinha, o próprio "tando", onde dezenas de milhar de antílopes se oferecem à escolha do freguês. Outros leões se foram juntando à primeira família, para usufruirem todo este conforto de civilização, e quando lá fui pela primeira vez já o burgo comportava mais de trinta.
Hoje, o antigo acampamento é um dos atractivos mais aliciantes do programa turístico da Reserva e constitui romagem obrigatória dos visitantes.
As fotografias tomadas neste bairro leonino fornecem-nos as cenas mais inéditas e mais inesperadas: um leão à janela (fig.1); uma leoa com as patas traseiras a sair duma porta e as dianteiras a entrar noutra (fig.2); leões estirados nas soleiras das portas (fig.3). Mas o espectáculo mais inacreditável a que jamais assistimos e àvidamente focámos na câmara, foi o de seis leões em cima do telhado (fig.4).
Como os fotografássemos insistentemente, a uns oito metros, acabaram todos por descer pacatamente a escada de caracol, espalhando-se cá por baixo, onde já se encontrava estirada uma dúzia deles.
Imediatamente ligada à cidade dos leões, estende-se a vasta planura rasa, ocelada aqui e além de charcos que servem de bebedouro e onde se espraiam, a perder de vista, dezenas de milhar de antílopes, gazelas, zebras, bois-cavalos, sem contar os palmípedes que enxameiam os lagos. À hora das refeições, um grupo de dois ou mais senhores da selva, saem as portas da cidade e vão ali, ao açougue, escolher uma rez. A operação é simples e rápida. Um dos felinos agacha-se, cosido à terra, e os outros enxotam-lhe para cima um herbívoro, que é colhido à passagem. Uma patada na nuca ou um estorcegão no pescoço e fica resolvido o problema dos abastecimentos.
Vida simples, fácil, confortável, a dos fidalgos de juba instalados neste solar feudal, cujo brazão é todo carregado de leões."

NOTA: Por feliz coincidência o nosso amigo Fernando Gil acaba de publicar na íntegra, no seu Blog "Moçambique para todos", este livro. Vale a pena ver. AQUI

Marrabenta, Julho de 2007
Celestino Gonçalves

05 July 2007

20 - RECORDANDO OS CAÇADORES GUIAS DA ÉPOCA DE OURO DOS SAFARIS EM MOÇAMBIQUE















RUI QUADROS

CAÇADOR GUIA E CAMPEÃO DE TIRO

Nascido na histórica Ilha de Moçambique, em 1937, RUI QUADROS é o primogénito de uma prole de 9 irmãos, filhos de um casal cujo patriarca - Afonso Quadros - era funcionário do quadro da administração civil da colónia e que se tornou muito conhecido no território precisamente por ser chefe de uma tão grande família, coisa rara entre os brancos. Outra faceta que notabilizou o pai Quadros era a sua grande paixão pela caça, que praticava nas áreas da sua jurisdição administrativa, quando chefe de Posto, a propósito de resolver problemas de alimentação do pessoal sob a sua responsabilidade empregue nas diversas actividades (administrativo, obras, presos, abertura e limpeza de picadas, etc,) ou mesmo para eliminar animais daninhos que invadiam os povoados e suas culturas.


As constantes transferências a que estavam sujeitos os funcionários daquele quadro administrativo levaram o Afonso Quadros e sua família a viverem praticamente em todos os distritos da colónia e em locais dos mais isolados e inóspitos do interior de Moçambique.Dizia-se, não sei se com fundo de verdade, que o pai Quadros pedia para ocupar os Postos Administrativos mais isolados e afastados que normalmente eram recusados por colegas seus, precisamente porque se localizavam nas regiões onde existia maior densidade de animais selvagens. Estiveram na rota de trabalho deste funcionário localidades do interior com tais características, como Lunga, Iutoculo, Matibane, Lalaua, Muite, Mutuali, Malema, Ligonha, Macuzi, Inhassunge, Gilé, Funhalouro e Saúte.


Naturalmente que os filhos, desde pequenos, criaram também a mesma paixão do seu progenitor, sabido que é que a caça é uma atracção muito forte para os jovens que têm o privilégio de viver em contacto com o mato e os animais bravios. O Rui, sendo o mais velho, desde tenra idade que acompanhava o pai nas incursões pelo mato e desde os seis anos que começou a lidar com espingardas. Começou pelas de pressão de ar e depressa passou às de bala de calibre ponto vinte e dois e depois às de calibres maiores. Iniciou-se no abate de aves e roedores e aos oito anos já matava pequenos antílopes. Aos nove abateu o seu primeiro búfalo e aos doze o primeiro elefante, tudo sob a batuta do pai e por vezes dos próprios cipaios do Posto.
Conheci o pai Quadros em meados da década de cinquenta durante as deambulações que também fiz como funcionário do mesmo quadro. Curiosamente, ele chefiou um posto que bem conheci: o de Saúte, localizado na circunscrição do Alto Limpopo, província de Gaza, entre o rio Save e o rio Limpopo. Uma região de clima muito sêco e com pouca população humana mas povoada de muitos milhares de animais bravios. Foi considerada, até à década de oitenta, a melhor área de caça de Moçambique e aquela que albergava mais variedade de espécies, algumas delas raras, como a girafa, a avestruz, a mezanze, a palapala cinzenta, a chita, a lebre saltadora, a raposa orelhuda e o lince. Outras espécies comuns, como elefantes, búfalos, elandes, zebras, gnús, palapalas, gondongas, cudos, leões, leopardos, chacais, hienas, inhalas, inhacosos, hipopótamos, impalas, changos, crocodilos, facoceros e cinco espécies de cabritos, eram muito abundantes. A célebre planície de Banhine era o epicentro desta região tão fértil em fauna selvagem e ficava a dois passos da povoação do Saúte. Um autêntico paraíso para a prática da caça, com destaque para a chamada caça grossa, que ali foi praticada em regime livre até à década de sessenta. Viria, depois, a ser ali criada a coutada oficial nº 17 que mais tarde, em 1973, foi extinta devido à criação do Parque Nacional do Banhine..


Foi nesta e noutras regiões idênticas que o Rui Quadros passou a maior parte da sua juventude e adquiriu uma larga experiência como caçador, tornando-se também um apaixonado pela vida animal. Só depois da instrução primária, que lhe foi ministrada pela mãe, se afastou para continuar os estudos (concluiu aos 17 anos os estudos secundários na África do Sul), mas durante as férias voltava sempre ao seio familiar e todo o seu tempo disponível era ocupado nas caçadas, que praticava à sombra das facilidades concedidas pelo próprio pai na qualidade de representante máximo da autoridade na respectiva área.


Gorados os seus sonhos de se tornar um biólogo virado para o ramo da fauna selvagem, por dificuldades financeiras dos pais para o manterem a estudar na África do Sul, procurou em Lourenço Marques uma actividade que o mantivesse em contacto com os animais bravios e assim começou por estagiar no Museu Álvaro de Castro (actual Museu de História Natural) onde aprendeu a embalsamar pequenas espécies, nomeadamente aves. Rapidamente se interessou pela ornitologia e ao serviço do Instituto de Investigação Científica de Moçambique dedicou-se à captura de pássaros. Percorreu todo o território em busca de espécies raras e ainda não catalogadas obtendo mais de uma centena de espécies novas para a vasta colecção do Museu.
Durante uma dessas campanhas, de mais de seis meses, na região do Lago Niassa, desenvolveu ali o gosto pela caça submarina, uma actividade que, para além de emotiva, lhe dava substanciais proventos pois vendia o pescado capturado, que normalmente atingia algumas dezenas de quilos por dia.


Entretanto a cidade capital também o cativou. O tempo disponível dedicava-o à prática do tiro de stand e ao atletismo. Em ambas as actividades depressa se notabilizou, logo a partir das categorias de júnior. No atletismo foi campeão de 400 e 800 metros. No tiro atingiu o patamar cimeiro em todas as provas, tornando-se campeão de Moçambique tanto na prancha como nos pombos, título que renovou sucessivamente, torneio após torneio, vencendo também inúmeras provas internacionais em que participou. Centenas de taças, medalhas e outros troféus foram-se acumulando na sua casa ao longo dos anos, primeiro em vitrines organizadas e depois a monte sobre os móveis da sala. De entre os melhores atiradores da época só o seu colega e amigo Amadeu Peixe o equiparou em títulos!

Amadeu Peixe e Rui Quadros - a dupla de caçadores guias que se tornou famosa na década de 60

NOTA: Texto e fotos do Álbum de Recordações onde se encontram mais elementos biográficos do caçador Rui Quadros. AQUI:

Marrabenta, Julho de 200

Celestino Gonçalves