09 March 2018

172 - CAÇADOR-GUIA HARRY MANNERS




ÁLBUM DE RECORDAÇÕES
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HARRY MANNERS
(Caçador Guia e um dos mais famosos caçadores de elefantes de Moçambique)

- (re)publicação -




HARRY MANNERS terá sido o melhor caçador de elefantes de Moçambique de todos os tempos! Muitos observadores assim o afirmaram, mas eu prefiro classificá-lo como um dos melhores. Aliás, é assim que penso em relação a todos os outros dos chamados “grandes” que  conheci pessoalmente ou de quem ouvi falar e, tal como o Harry Manners, foram extraordinários caçadores não só de elefantes como de toda a chamada caça grossa.

 Este princípio de não alinhar na definição de “melhor caçador” assenta no facto de se tratar de um juízo de valor com elevado risco de erro, já que tal designação por norma surge da fama propagada a partir do próprio, de amigos, ou de pessoas que ouvem as histórias por vezes mirabolantes das caçadas quase sempre associadas a actos de valentia ou a grande número de animais abatidos pelo caçador, com destaque para  elefantes, leões e búfalos. Por outro lado, também coloco reticências em certos livros, nomeadamente os de cariz  autobiográfico onde os autores se colocam como arautos da modalidade, menosprezando ou simplesmente esquecendo os outros que fizeram o mesmo ou melhor que eles.

Houve, sem dúvida, em África, caçadores famosos, conhecidos por  “White Hunters”,  muitos deles  biografados em  livros de memórias. Nomes como Frederick Selous, John Hunter, Allan Black, Bill Judd, Fritz Schindelar, Leslie Simpson e Karamojo Bell,  são referências lendárias que actuaram em finais do século dezanove e princípio do século vinte nos territórios sob domínio inglês e alemão e cujas histórias continuam a fascinar qualquer pessoa que gosta da caça grossa africana.

Para além do Harry Manners, em Moçambique houve também caçadores que se notabilizaram, como John Taylor (Pondoro), Jorge Alves de Lima, George Dedeck, José Pardal, Gustave Guex, Joaquim Ventura, Charles White, Wally Johonson, Werner Alvensleben,  Pierre Maia, Manuel Nunes, José Afonso Ruiz, Virgílio Garcia, Daniel Roxo, Orlando Cristina, etc.

A actividade de caça em África, como profissão, não era  propriamente  um acto de desporto como muitos pretendiam fazer crer. Era sim um trabalho lucrativo, muito duro e arriscado, que não envolvia qualquer tipo de competição. O caçador  actuava  normalmente longe das vistas de outros concorrentes e a sua equipa limitava-se ao pessoal auxiliar (pisteiros e carregadores), pelo que toda a sua actividade raramente era conhecida por estranhos. Em Moçambique – e julgo que no resto do continente africano -  jamais algum caçador, profissional ou amador, foi avaliado através de parâmetros ou escalas de valor apropriados, nomeadamente sobre os conhecimentos científicos como o comportamento das espécies, sua anatomia, conhecimentos de balística, etc. Quando muito – e  isso era também  uma tarefa nossa, da fiscalização -,   ajuizava-se o valor de cada um apenas em função dos resultados das suas campanhas de caça, do respeito que tinham pelas leis da caça,  pela forma como colaboravam na luta contra a caça furtiva e pelo apoio que davam às populações nativas defendendo-as dos animais perigosos  quando  invadiam as suas culturas alimentares ou atacavam as pessoas. Isto só, do meu ponto de vista, não constitui juízo de valor de onde se possa inferir uma escala classificativa
O Harry Manners foi, sem dúvida, um dos caçadores mais competentes que actuou em Moçambique, durante cerca de três décadas (1940/1970) e por isso merece estar no topo dos melhores,  dos mais consagrados. Foi ele quem abateu, na década de 40, o elefante com as maiores presas registadas no território, com cerca de 80 Kg cada e que são as terceiras maiores a nível mundial.

A  história dessas célebres presas é muito curiosa e teve ao longo de vários anos algumas versões contraditórias depois que foram localizadas na cidade da Beira em 1964. Não havia, na altura, qualquer referência sobre a sua origem, mas porque se tratava de troféus de grandes proporções que excediam todos os que eram conhecidos, os Serviços da Fauna Bravia, através do Dr. Armando Rosinha, então chefe da Repartição de Veterinária de Sofala (Beira), evitaram que o seu destino fosse a exportação para Hong Kong, o caminho de praticamente todo o marfim de Moçambique. Do armazém do comerciante Serra Campos, que era fiel depositário das presas por fazerem  parte de um processo de falência que corria no tribunal contra  um outro comerciante (indiano) da Beira, este valioso espólio foi transferido para o Museu desta cidade, na dependência da respectiva da Câmara Municipal. Nesse mesmo ano (1964) foram levadas à Exposição Mundial de Caça em Itália onde foram muito admiradas (e cobiçadas) no pavilhão de Moçambique.

Regressadas desta exposição, o então director do Parque Nacional da Gorongosa, Dr. Silva e Costa, que fora o responsável da representação moçambicana naquele certame, obteve a permissão de tais presas ficarem no recém criado Museu do mesmo Parque e ali permaneceram até 1977, altura em que o arquitecto responsável pela decoração do Palácio da Presidência da República (Moçambique  era já independente desde 1975) procurou junto dos Serviços da Fauna (curiosamente sob a chefia do Dr. Armando Rosinha) um par de presas de elefante com dimensões e beleza  significativas para serem colocadas em lugar de destaque na residência oficial do presidente Samora Machel. Pela segunda vez, o Dr. Rosinha foi protagonista no destino dessas presas, ordenando a sua transferência  da Gorongosa para Maputo. Chegadas ao Palácio, o arquitecto julgou-as incompatíveis com a decoração pretendida devido ao seu grande tamanho e pouca curvatura. De novo, recorreu aos Serviços da Fauna para uma outra alternativa, tendo o problema sido solucionado com um par de presas mais adequadas e que já existiam nestes Serviços, em Maputo. Mais uma vez (a terceira), o Dr. Rosinha interveio no destino das grandes presas sugerindo ao presidente Samora Machel que as mesmas fossem entregues ao Museu de História Natural.

A controvérsia sobre a origem destes raros e valiosos troféus só terminou no ano de 1997 quando o Harry Manners visitou, pela última vez, a cidade de Maputo, pouco antes do seu falecimento ocorrido na África do Sul. Nessa ocasião, ele confirmou ao director do Museu, Dr. Augusto Cabral, que aquelas eram as presas de um grande elefante que abatera na década de 40 e depois vendera a um comerciante indiano da cidade da Beira. Exibiu, inclusivamente, uma fotografia tirada junto das presas no momento  da sua venda, ajudando assim à sua identificação e ao desvanecimento das dúvidas que até ali prevaleciam acerca da sua origem. A mesma foto foi  publicada no seu livro “Kambaku”, editado em 1986 nos USA e reeditado em 1997 na África do Sul.

Quando visito o Museu de História Natural em Maputo e admiro aqueles dois preciosos troféus, sinto que também eu participei no seu destino pois na altura em que os mesmos foram levados à exposição de Itália, em 1964, encontrava-me a coadjuvar o director do Parque Nacional da Gorongosa e participei na organização e envio dos troféus representativos de Moçambique. Tive a feliz ideia de fazer um seguro especial para as presas de elefante e isso valeu a sua protecção, por parte da seguradora internacional. O Dr. Silva e Costa, no seu regresso de Itália, louvou esta minha iniciativa e disse que não fora a protecção dada pela seguradora e provavelmente as presas não teriam regressado,  tal a cobiça de que foram alvo durante a  exposição!



O célebre par de presas de elefante antes da sua saída do Museu do Parque Nacional da Gorongosa em 1977. O seu primeiro destino  foi o Palácio da Presidência em Maputo.



O destino final dos preciosos troféus acabou por ser o Museu de História Natural de Moçambique.
O director do Museu,  Dr. Augusto Cabral (à esquerda com o autor, nesta foto tirada em Março de 2005), projectou e executou  este belo trabalho de enquadramento  e fixação  das presas na parede frontal de acesso ao primeiro andar do Museu.



Foto  da capa do livro “KambakU”, o testemunho fiel da história das célebres presas do elefante que o Harry Manners (ao centro) abateu em Moçambique, na década de 40 e que vendeu a um  comerciante indiano (à direita) da cidade da Beira.



Em 1997, pouco antes do seu falecimento na África do Sul,  o Harry Manners  visitou Moçambique pela última vez.  Na foto,  ao lado do seu amigo e colega  Sérgio Veiga,  ele exibe a fotografia das célebres presas, tirada no momento da sua venda nos anos 40.

O Harry Manners era um homem simples, muito calmo e pouco dado a contar histórias que o vangloriassem. A sua fama de grande caçador propagou-se por toda a parte onde actuava e eram as próprias populações que divulgavam os seus feitos sobretudo quando a sua acção incidia na eliminação  dos animais que destruíam as culturas alimentares ou atacavam as próprias pessoas.
Esses feitos eram também conhecidos e divulgados pelos seus contemporâneos e  colegas  de profissão, como Werner Alvensleben, José Afonso Ruiz e outros considerados  “grandes” da caça aos elefantes. Ao referirem-se ao Harry o chamavam simplesmente de “mestre”!
Durante os longos anos de vivência no mato,  o Harry Manners granjeou das populações rurais grande admiração e respeito, deixando por toda a parte um rasto de saudade que ainda hoje é reflectido pela voz dos anciãos quando se referem a este caçador branco que muitas vezes acorria em defesa das aldeias  contra as invasões dos elefantes ou ataque de leões.




O Harry Manners com o seu amigo e também caçador profissional Werner Alvensleben, junto de um grande “Kambaku” (elefante velho) abatido na década de 40  quando actuavam juntos  na região Sul de Moçambique. (Foto gentilmente cedida por Werner Alvensleben em 1966, durante uma das minhas visitas ao Zinave)

Conheci este famoso sertanejo durante a sua actividade de caçador guia, na Coutada 16, da Limpopo Safaris,  em fins dos anos 60. Pude observar que não era um homem feliz nesta actividade de condução de safaris, onde ele e outros antigos caçadores se integraram, porque fora abolida, em finais dos anos 50, a caça profissional para negócio de carne e troféus. O Harry Manners jamais se conformou com esta mudança e nunca se adaptou à nova profissão. Não conseguia disfarçar a sua frustração e por vezes até falhava na cortesia para com os turistas que acompanhava, alguns deles se lamentavam e num ou noutro caso se recusaram a completar os safaris sob sua orientação.
Em 1973, desiludido e provavelmente já cansado de conduzir safaris, aceitou o cargo de gerente do complexo turístico da praia de Pomene,  na Província de Inhambane, pertença do seu amigo Werner e dos manos Abreu, proprietários da empresa  Moçambique Safarilândia e dos Hotéis Tivoli e Turismo em Lourenço Marques (hoje Maputo).




O Harry Manners (ao centro) com o Dr. Armando Rosinha (esquerda) e eu próprio (direita), quando o visitamos no Pomene, em 1973.

Tendo regressado ao seu país de origem – África do Sul – depois da independência de Moçambique, em 1975,  ali reeditou o seu livro “KambakU”,  que é a reposição das suas memórias e experiências como caçador profissional. No próprio livro ele não se arroga de melhor nem campeão de qualquer feito. Descreve tudo com a simplicidade e a modéstia que todos lhe reconheciam.

Faleceu em Nelspruit em Maio de 1997.



Marrabenta, Setembro de 2005
Celestino Gonçalves
Técnico de funa  bravia de Moçambique (reformado)

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