21 June 2007

17 - LIVROS SOBRE FAUNA BRAVIA, CAÇA E CAÇADORES DE MOÇAMBIQUE





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Título: ANIMAIS SELVAGEMS



Contribuição para o estudo da fauna de Moçambique
Autor: João Augusto Silva



Editora: Imprensa Nacional de Moçambique



Ano: 1956





O autor junto de um elefante que abateu no Niassa na década de 40



(foto extraída do livro)





1.- DADOS SOBRE O AUTOR




Funcionário do quadro administrativo colonial, João Augusto Silva fez a maior parte da sua carreira em Moçambique (décadas de 40, 50 e 60), tendo ali atingido o cargo superior de inspector. Como administrador de circunscrição, esteve colocado em vários pontos do território, incluindo a Gorongosa cujo Parque Nacional dirigiu por acumulação e sobre o qual publicou o excelente livro-álbum, "GORONGOSA - Experiências de um caçador de imagens" , que publicaremos no próximo post.

Os dados biográficos deste personagem revelam possuir uma rara formação académica e profissional, abarcando títulos invejáveis como: escritor, artista (pintura, fotografia e desenho), administrador e naturalista.Dedicou-se muito particularmente ao estudo da fauna bravia africana, sobretudo de Moçambique. Aquelas duas obras são o testemunho disso pois constituem documentos importantes que preencheram, ao tempo da sua publicação, lacunas importantes na literatura deste ramo e ainda hoje são consideradas das melhores do país.


João Augusto Silva, para além de estudioso da vida selvagem foi um excelente caçador, tornando-se muito conhecido não só pelas narrativas dos seus feitos, mas também pela acção que desenvolvia junto das populações rurais, abatendo os animais bravios que invadiam as suas culturas ou atacavam as próprias pessoas. Elefantes, búfalos, rinocerontes, hipopótamos e leões, constam da longa lista dos seus abates da chamada "caça grossa". Ele praticava a caça como sendo mais uma actividade inerente às suas funções administrativas e foi justamente esta prática que lhe proporcionou o estudo do comportamento das espécies no seu estado selvagem, deixando-nos um importante legado nesta matéria.
Na parte final da sua carreira em Moçambique, organizou e dirigiu um programa radiofónico - A VOZ DE MOÇAMBIQUE - nas principais línguas locais, que se tornou um sucesso em todo o território.





2.- DADOS SOBRE O LIVRO




Antes da publicação do "ANIMAIS SELVAGENS", em 1956, pouco fora escrito, em português, sobre a fauna bravia de Moçambique. A lacuna foi colmatada com esta preciosa obra graças à feliz circunstância do seu autor residir em Moçambique, ser um entusiasta da caça, um estudioso da vida selvagem e também escritor. O Governo da Colónia soube aproveitar a oportunidade e mandou publicar este excelente trabalho que surgiu numa altura da minha vida em que estava muito carente de conhecimentos da matéria.
Com efeito, nessa altura havia já concorrido ao lugar de fiscal de caça e aguardava a nomeação (confirmada em Janeiro de 1957), mas francamente pouco sabia sobre o panorama faunístico do território e muito particularmente dos hábitos dos animais. Esta obra ajudou-me imenso nos conhecimentos teóricos que adicionei à relativa prática de pouco mais de um ano de contacto com a vida bravia no Alto Limpopo, onde me apaixonei pela causa da protecção deste importante património da natureza.




A extensa “Introdução” deste livro, só por si, constitui uma valiosa lição sobre a vida animal selvagem do continente africano, com algumas extensões comparativas a outros continentes. Não encontrei, até hoje, em qualquer dos muitos livros da matéria que li, uma síntese tão completa e uma descrição tão encantadora sobre a fauna bravia e o seu habitat.


O conteúdo em si, a que o autor classificou de "Contribuição para o estudo da fauna de Moçambique", é todo um desfiar de narrativas de factos, através das quais se dá conta de como vivem e reagem os animais selvagens perante a interferência dos humanos e muito particularmente dos caçadores que os perseguem e abatem. Espécies como: Elefantes, Rinocerontes, Hipopótamos, Búfalos, Girafas, Elandes, Bois-cavalo, Egoceros (palapalas), Cudos, Inhalas e Impalas, foram objecto de análise pormenorizada, mas a que mereceu maior desenvolvimento foi o Elefante, o gigantesco e incontestável rei dos sertões, assim definido pelo autor que acrescentou:




No seu ambiente natural, o elefante – animal soberbo, ágil, fortíssimo, majestoso – assombra pela força bruta aliada a uma clara inteligência. Ele é um dos animais cujo tipo de inteligência mais se aproxima do nosso.




Uma vasta colecção de fotos e desenhos daqueles animais ilustra essas narrativas, não obstante algumas imagens serem de animais mortos que podem impressionar as pessoas menos preparadas para entender o desporto dito de mais nobre e viril!
Uma lista dos ungulados de Moçambique completa esta obra, conferindo-lhe carácter científico que mais a valoriza visto que ali podemos encontrar a classificação sistemática das espécies segundo as convenções internacionais (Ordem, Sub-ordem, Divisão, Família, Sub-família e Género). Na nomenclatura comum destas espécies os nomes aparecem em português, inglês, francês e línguas (dialectos) locais como Tonga, Macua e Suahili, outro aspecto importante da mesma obra.




Embora seja em relação ao elefante que o autor mais escreveu e todas as narrativas nos encantem, escolhemos contudo um trecho do texto de abertura do capítulo “RINOCERONTE”, porque raros foram os caçadores que tiveram o privilégio de caçar e narrar com semelhante realidade e sentido poético o cenário como aqui é descrito por João Augusto Silva:




Paira em toda a largura do sertão o silêncio das grandes solidões do mundo. Parece que a vida estagnou. Espinhosas retorcidas, nuas, quedam-se tristes, batidas por um bafo de fornalha que queima como ferro em brasa. A grandes espaços, uma ave que não se vê ousa soltar um canto monótono – gemido prolongado que vai morrer ao longe, lentamente. As queimadas lamberam a terra e as árvores com ardente sofreguidão, deixando por toda a parte um manto cinzento-negro de ruína. Secou a água nos pântanos e o lodo, causticado pela febre do sol, greta como os lábios de um doente.
O homem não vive por ali, nem visita essas paragens, porque o homem tem horror ao silêncio.
E, contudo, ali vivem os grandes gigantes da fauna africana.
Por essas solidões ardentes passeia melancólico o rinoceronte, dando largas à sua psicose de inadaptado. Ele não é um vagabundo como o elefante. Bem ao contrário. Esse estranho paquiderme é um burguês rotineiro e sedentário.
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Por esses matos fora nunca lograreis encontrar um elefante, um búfalo ou um antílope dormindo a sono solto. Mas ao rinoceronte podeis surpreendê-lo dormindo pesadamente, alheio a tudo. E quando ressona fundo, sem dar conta de nada, como se ainda vivesse noutras eras, nas profundezas do Quaternário, quando o homem não passava de um tímido antropóide, impotente para lutar com as grandes feras.
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Rinoceronte - desenho do autor que ilustra o capítulo dedicado a este paquiderme

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Um livro que enriquece a biblioteca não só dos apaixonados pela caça, como dos amantes da natureza e da vida do mato, tão belas são as narrativas das experiências vividas pelo autor.

Marrabenta, Junho de 2007








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